O poder terapêutico do verde – por Vitoria Davies

A coluna de hoje é sobre a psiquiatra e psicoterapeuta Sue Stuart-Smith e o poder terapêutico do verde e do contato com a natureza.

Sue Stuart-Smith é a mulher de Tom Stuart-Smith, o maior ou um dos maiores paisagistas britânicos da atualidade. Mas a importância de Sue Stuart-Smith advém de mérito próprio. Além de sua proeminência como psiquiatra e psicoterapeuta, ela lançou em abril deste ano o aclamado livro The Well Gardened Mind (A mente bem cultivada, em tradução literal). Nele, Sue mostra sua visão singular do trabalho com plantas e jardins: “Percebi que a criação de jardins e a jardinagem envolvem processos existenciais profundos”. Para ela, um jardim representa muito mais do que apenas um espaço físico – é um espaço mental que nos “permite ter quietude e ouvir nossos pensamentos”. Ao cuidar de suas plantas, você está ao mesmo tempo cuidando do seu íntimo.

Via Google

A autora tece em conjunto elementos, fatos e evidências extraídas da Literatura, da Antropologia, da Psicologia, da Psicanálise e da Neurociência, das histórias e depoimentos de seus pacientes e de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela horticultura, bem como das suas experiências e as de sua família e o impacto mental que o trabalho com plantas teve em suas vidas. Além disso, recorre a pensadores psicanalíticos como Jung, Freud e Winnicott, que, de diferentes maneiras, entenderam de modo profundo a relação do homem com a natureza.

Assim, com base nessas pesquisas e evidências, o livro de Sue Stuart-Smith revela muitos insights sobre os benefícios da jardinagem e do contato com a natureza para a nossa saúde mental.

O ritmo da vida urbana moderna leva à desvalorização do ritmo mais lento do tempo natural. Nós nos tornamos desconectados da natureza. O psicanalista Carl Jung acreditava que a vida tecnológica moderna nos havia alienado de nosso íntimo e pregava que “todo ser humano deveria ter um torrão para cultivar, de modo que seus instintos pudessem ganhar vida novamente.

Via Google

As pesquisas mostram que a proximidade com a natureza verde alivia a ansiedade, melhora o humor e revitaliza o funcionamento cognitivo, além de diminuir a pressão arterial e os níveis do cortisol, o hormônio do estresse. Mostram também que o contato com o solo nos expõe a bactérias benignas que fortalecem o sistema imunológico. Tudo indica que uma delas em especial, a Mycobacterium vaccae, contribui para o aumento dos níveis do neurotransmissor responsável pelo humor, a serotonina, no cérebro.

Via Google: pacientes em um Centro de Reabilitação

Outros aspectos psicológicos e emocionais dos efeitos da jardinagem são igualmente importantes. Por exemplo, lidar com o ciclo da vida através das plantas pode ser extremamente benéfico após uma grande perda ou trauma. E o sentimento de autorrealização que o trabalho com a natureza verde traz aumenta a nossa autoestima.

Neste nosso momento atual, em que passamos por uma crise de saúde mundial, as pessoas têm mostrado maior interesse em plantas, jardins, em se conectar mais com a natureza, enfim. Esse fenômeno tende a ocorrer após desastres naturais e guerras, afirma Sue, e foi denominado “biofilia urgente” por Keith Tidball, da Universidade de Cornell, para descrever essa preemente necessidade de nos reconectarmos com a natureza quando expostos a situações extremas.

Há diversas maneiras de introduzir a natureza verde em nossas vidas mesmo que não tenhamos um jardim, diz Sue: cultivando ervas aromáticas no parapeito da janela; enfeitando a casa com flores de corte ou com plantas cultivadas em vasos; ouvindo gravações de cantos de pássaros ou de outros sons da natureza; ou passando algum tempo em ambientes abertos, com árvores e plantas ao redor, apreciando o mundo natural à nossa volta. Nossa saúde mental depende de encontrarmos um espaço calmo dentro de nós, e a natureza verde pode nos ajudar nisso, porque as plantas e as árvores não são afetadas pelos problemas que passamos, são estáveis, e, assim, capazes de nos prover da tranquilidade necessária à nossa paz interior.

Somos parte da natureza, e precisamos cultivar nossa conexão com ela para prosperarmos e vicejarmos como seres humanos.

A biofilia como elemento de inspiração – por Viviane Mendonça

Talvez você ainda não tenha ouvido falar em biofilia, mas com certeza já ouviu falar em qualidade de vida, nos benefícios que a natureza nos traz e como ela é capaz de recarregar nossas energias.

Pois é, a biofilia nada mais é do que nossa tendência natural a amar tudo que é vivo (bio =vida, philia=amor). Sua origem está lá nos nossos ancestrais homens da caverna, por isso está presente no nosso DNA e nos faz querer buscar uma reconexão com a natureza, nos fazendo “relembrar” daqueles velhos tempos e assim nos sentirmos mais “em casa”.

Marina One Singapura
Marina One Singapura
Ingenhoven Arquitetos | Paisagismo Gustafson Porter + Bowman
Imagem: foto HGEsch; site Archidaily Brasil

E isso faz muito sentido! A humanidade passou 95% de sua história evolutiva envolta pelo ambiente natural. Estamos programados para responder aos estímulos da natureza e com ela conviver.

A migração para as cidades só ocorreu nos últimos 200 anos, pós revolução industrial e nossos corpos e mentes não foram capazes de se adaptar a uma
mudança tão drástica em nossos ambientes em tão pouco tempo. No Brasil, por exemplo, a população deixou de ser predominantemente rural apenas nas décadas 1960/70. Pouco tempo atrás, não é?

Essa nova forma de viver em tempos modernos, esse novo ambiente que não é natural à nossa espécie trouxe consigo níveis mais elevados de estresse, crimes, doenças psicológicas e também níveis mais baixos de produtividade e aprendizagem.

É aí que o design biofílico entra! Quando trazemos a natureza para os espaços construídos pelo homem moderno, resgatamos a nossa essência natural e começamos a desfrutar de seus muitos benefícios em nossas vidas. Como nosso corpo está acostumado ao ambiente natural, ele reage positivamente aos estímulos, reduzindo a pressão arterial, a freqüência cardíaca, o hormônio do estresse e aumenta a imunidade e a sensação de bem-estar, promovendo saúde física e emocional.

One Beverly Hills em Los Angeles
One Beverly Hills em Los Angeles
Norman Foster Arquitetos | Paisagismo Mark Rios
Imagem: DBOX for Alagem Capital Group


Para nos reconectarmos com a natureza, podemos adotar o design biofílico em nossas vidas, seja em casa, no escritório ou até mesmo em restaurantes, lojas e centros comerciais. Os jardins, as plantas em vasos, a presença dos pets, as paredes verdes, plantas suspensas, jardineiras sobre lajes são alguns dos recursos, mas eles não param por aí. Imagens com cenas da natureza também funcionam e provocam reações positivas em nosso cérebro. Iluminação natural, ventilação de ar natural, aromatizantes de ambientes com óleos essenciais e sons do canto de pássaros, por exemplo, também trazem a natureza para dentro. Vistas amplas para o ambiente externo, materiais naturais como a madeira e a pedra, desenhos que mimetizam elementos da natureza e até a presença da água e do fogo nos remetem ao nosso habitat original.

A ciência já comprova os efeitos positivos da biofilia, mas quando os espaços humanos aderem ao design biofílico, nós podemos sentir os seus benefícios na própria pele, pela própria experiência. É só começar e conferir!

Cidade Matarazzo São Paulo
Jean Nouvel Arquitetos | Paisagismo Louis Benech e Benedito Abbud
Imagem: Cidade Matarazzo

Quer aprender mais sobre Design Biofílico?

Confira a palesta online feita pela paisagista Flávia D’Urso, disponível na Loja do Papo.

Vamos Viajar? Destino: Chelsea Physic Garden por Vitoria Davies

Freud se referiu ao princípio geral do sonho como sendo um wish fulfillment – um desejo inconsciente realizado de modo imaginário e que aparece ao sonhador de forma disfarçada.

Estamos hoje vivendo tempos singulares, limitados por um vírus que nos impede de ir e vir e de usufruir tantas coisas que anteriormente nos bastava ter vontade, disponibilidade e dinheiro para concretizar esses desejos. Foi pensando nisso e sentindo a falta disso que me veio o desejo consciente e nada disfarçado de, através desta coluna, revisitar o Chelsea Physic Garden, em Londres.

Chelsea Physic Garden. Fonte: Google

Situado próximo ao rio Tâmisa, o Chelsea Physic Garden foi estabelecido pela Sociedade dos Apotecários na antiga aldeia de Chelsea em 1673. Originalmente dedicado à pesquisa e cultivo de plantas medicinais, hoje abriga cerca de 5 000 plantas medicinais, comestíveis e históricas, entre outras. É o segundo mais antigo jardim botânico do país, depois de Oxford, e um dos tesouros escondidos da capital. Chelsea não é mais uma aldeia, é um dos bairros mais atraentes de Londres, mas o local desse jardim continua muito especial.

A localização e o microclima do Chelsea Physic Garden permitiu que ao longo de sua história fossem cultivadas plantas raramente presentes em outras regiões do Reino Unido. Entre as mais de 100 espécies de árvores que ali se encontram, destaca-se a maior oliveira da Grã-Bretanha, que em 1976 produziu 3,5 kg de azeitonas, um recorde para Londres.

Seu primeiro benfeitor foi Sir Hans Sloane (1660-1753), um famoso médico, naturalista, colecionador e responsável pela criação do Museu Britânico. Sir Hans tinha sido aprendiz de jardinagem no Chelsea Physic Garden e, seguindo seu interesse desde criança por História Natural, acabou fazendo sua formação em Medicina e Botânica. Em 1687 foi para a Jamaica, então colônia britânica, como médico do novo governador da colônia. Foi quando teve início sua carreira como colecionador, criando uma coleção de 800 espécies de plantas, bem como de animais e curiosidades, e que foi se estendendo ao longo de décadas, passando a incluir também livros, manuscritos, moedas, medalhas e um herbário com 334 volumes de plantas secas de várias partes do mundo. Suas coleções vieram a ser a base do Museu Britânico, fundado em 1753.

Estátua de Sir Hans Sloane, no jardim do Chelsea Physic Garden. Fonte: Google

Durante seu período na Jamaica, Sir Hans observou mulheres locais misturando cacau com leite para aliviar problemas estomacais e levou consigo a receita ao retornar para a Inglaterra. Vendeu-a para a empresa de chocolates Cadbury, o que fez com que se tornasse muito rico e em 1712 comprasse a mansão do Chelsea Physic Garden, passando a alugá-la para a Sociedade dos Apotecários, que, à época, andava tendo problemas com a gerência há algum tempo. Assim garantiu a sobrevivência do jardim onde ele havia recebido seu treinamento, ao preço de 5 libras ao ano perpetuamente pelo aluguel. Esse valor é pago até hoje aos descendentes de Sir Hans.

O jardim foi aberto ao público em 1983, com seus 16 mil m2 de pura beleza.

Chelsea Physic Garden. Fonte: The Telegraph
Chelsea Physic Garden. Fonte: Google
Chelsea Physic Garden. Fonte: Vitoria Davies

Para mim, o Chelsea Physic Garden tem um valor especial extra, pois ali são realizados os cursos de paisagismo da The English Gardening School, onde fiz a minha formação, escola fundada e dirigida por Rosemary Alexander, uma das mais influentes paisagistas britânicas, que também leciona nos cursos. É autora de uma série de livros excelentes sobre paisagismo, e o jardim de sua residência é regularmente aberto ao público. Fomos privilegiados com uma visita guiada pela própria Rosemary durante o curso, com direito a almoço, também preparado por ela. Tempos felizes…

Vista da sala de aula. Foto: Vitoria Davies
Chelsea Physic Garden. Foto: Vitoria Davies

A evolução dos bancos de jardim – por Vitoria Davies

Ao longo dos séculos, o mobiliário para jardim foi passando por mudanças no design e nos materiais usados na sua construção.

Os antigos egípcios usavam recursos naturais na produção de mobiliário, como grama de pântano e cana, que crescem nas margens do Rio Nilo. Embora feitos para uso em interiores, os egípcios os usavam também nos jardins.

Os antigos gregos foram os primeiros a produzir mobiliário feito exclusivamente para jardim, mais tarde copiado pelos romanos. Em geral os assentos eram feitos de pedra, bastante pesados e desconfortáveis. Algo como o que a imagem abaixo mostra:

Foto: Alamy

Os exemplos mais antigos de mobiliário para jardim foram descobertos por arqueologistas ao desenterrarem Pompeia, a antiga cidade romana, e se depararem com esses itens nos jardins das antigas casas da cidade.

Na Idade Média, os jardins eram mais funcionais do que decorativos; não era um lugar para se relaxar, mas para cultivar vegetais, frutas, ervas medicinais. Os assentos eram bancos de relva ou jardineiras arrematadas com relva, como se vê em pinturas de jardins do início do século 15.

Bancos de relva em pintura medieval. Via Google
Via Google

No Renascimento, o jardim voltou a ser um ambiente onde se relaxar, tomar chá, tocar música, fazer jogos. Os assentos usados nos interiores eram levados para o jardim. Sendo pesados demais para esse leva-e-traz do jardim, não demorou para que a primeira cadeira de jardim fosse criada – a cadeira Windsor, de origem inglesa. Datada do inicio do século 18, logo se tornou popular por ser muito leve. Embora originalmente criada como cadeira de jardim, mais tarde veio a ser usada também em interiores, como cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo. cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo.

Cadeira Windsor, primeira cadeira criada especificamente para ser usada em jardins, no início do século 18. Via Google
Cadeira Windsor em pintura da época. Via Google

No final do século 18 e início do século 19, já existiam jardins públicos e parques em todas as cidades. Havia grande demanda de assentos para essas áreas externas, o que resultou na criação do banco de praça.

Banco de praça icônico projetado pelo arquiteto britânico Edwin Lutyens (1869-1944). Via Google

Nesse período, também a indústria de ferro fundido começou a produzir bancos, cadeiras e mesas para a área externa.

Banco de ferro fundido. Via Google

Em meados do século 20, os jardins residenciais voltaram a ter destaque, com as pessoas se reunindo mais nas áreas externas, o que fez com que o mobiliário de jardim se tornasse uma necessidade. Novos materiais começaram a ser utilizados, em especial o plástico, e cadeiras e mesas de plástico se tornaram itens presentes em quase todos os jardins.

Hoje são produzidos todo tipo de bancos, assentos enfim, para a área externa, em diversos materiais, cores, e com designs bastante originais, ou mesmo esculturais, como se vê nos exemplos abaixo:

Banco Romeu e Julieta, criado por Stijn Goethals, Koen Baeyens e Basile Graux para a empresa Extremis. Os próprios vasos servem como pés do banco. Via Google
Banco em formato orgânico, de aço galvanizado com pintura eletrostática, criado pelo paisagista Amir Schlezinger. Via Google
Bancos como um prolongamento do piso, emergindo esculturalmente, no High Line em Nova York. Via Google
Variação sobre o mesmo tema: os bancos são uma continuação dos caminhos. Via Pinterest
Banco em forma de escultura, ou escultura em forma de banco? Via Pinterest
Via Pinterest
Please be seated, instalação criada pelo designer britânico Paul Cocksedge para o London Design Festival 2019. Via Google

Hoje realmente não há limites para a criatividade quando se trata de bancos para as áreas externas…

Um jardim holandês no Brasil – por Dorothi Bouwman e Chris Lara

A visita a um jardim temático nos trás a oportunidade de viajar, no tempo e no espaço.

A nossa viagem hoje é pelo jardim do Museu Histórico de Castrolanda (fundado em 2016), uma réplica dos jardins da região da Holanda de onde vieram as famílias que fundaram a colônia. Um jardim que além de valores culturais, nos apresenta outras formas de viver.

A proposta deste projeto envolveu a contextualização do paisagismo com a época de uma construção rural típica do tipo “Hallehuisgroep” (residência e estábulo debaixo do mesmo telhado, sendo a residência na parte da frente da construção e o estabulo ao fundo), do leste da Holanda de onde vem os imigrantes holandeses da Colônia Castrolanda.

A responsável pelo desafio de resgatar a identidade e a história de um jardim tipicamente rural holandês é a paisagista Dorothi G Bouwman, que apesar de descendente, precisou estudar a fundo os hábitos e costumes das pessoas que viviam neste tipo de propriedade no século XIX.

A cultura do jardim rural holandês

Quando se pensa em uma propriedade rural daquela época, logo vem a mente aspectos como funcionalidade e praticidade, pois o jardim era criado para atender algumas necessidades básicas da família. Estes jardins dependiam exclusivamente da dedicação da esposa, já que o marido era o responsável pelo cuidado com os animais e as atividades agrícolas. Não sobrava muito tempo e não havia terceiros para fazer a manutenção.

Praticamente todo jardim tinha uma horta, um pomar e um poço de água. Também havia a necessidade de planejar o jardim visando evitar a entrada ou saída dos animais e criar uma barreira de proteção contra ventos fortes, para isso, eram plantadas árvores altas na lateral das propriedades.

Quanto maior o poder aquisitivo, maior a quantidade de plantas ornamentais introduzidas ao longo do tempo. A mistura de plantas também era consequência das visitas que as esposas faziam, levando sempre uma muda para presentear e trocar com a vizinha.

Entre os estilos que influenciaram os jardins holandeses da época estão o estilo clássico e o de cottage, além da influência naturalista.

O projeto do jardim holandês de Castrolanda

Com este estudo inicial gerou-se uma expectativa de releitura que deveria ser clara, isto é, fácil de interpretar e de ser apreciada pelos futuros visitantes do museu.  

E assim vieram os desafios. Como trazer todos estes elementos para o jardim de forma organizada e harmoniosa? Quais espécies incluir no projeto para atender as características do clima local, que estejam disponíveis em viveiros no Brasil, e que ao mesmo tempo tenham relação com um jardim rural holandês. Na etapa da implantação, como fazer esta mistura sem parecer uma bagunça? Quais pisos utilizar que representem o estilo e que atendam as regras de acessibilidade. Como era este poço utilizado naquela época? Para o quebra-vento, qual espécie escolher?

A solução para todas estas perguntas você poderá acompanhar a seguir.

Planta baixa do projeto

A planta baixa mostra os desenhos orgânicos nos canteiros frontais e laterais, como no estilo cottage, e o estilo clássico com desenhos geométricos com um eixo que engloba a horta, o pomar, o poço e termina em um pergolado.

Fotos atuais do projeto

Vista dos canteiros orgânicos com a mistura de espécies. Foram utilizadas espécies com diferentes épocas de floração como: Rododendro, Hortensia, Budleia; Arbustos com folhas interessantes como o Mini Pitosporo, Nandina Anã, Fotinea; alguns tipos de Capins e também folhagens para forração como o Liriope, Flores anuais como a Dahlia , Salvia Farinacea , entre outros.
Pátio central com topiaria de buxinho e capim do texas observando o eixo até o pergolado ao fundo.  No piso desenhos com  paver antique , paver clay também e piso drenante , que neste caso foi escolhido para remeter a uma cobertura de pedriscos.
A horta em canteiros elevados.
Poço ao centro para retirada da água (típico da época). A alavanca era uma forma de facilitar o trabalho para a mulher.

Estas imagens mostram o Álamo piramidal como quebra vento no limite do terreno e a vista do pergolado.

Sobre a paisagista

Dorothi G Bouwman é engenheira agrônoma e paisagista, descendente de Holandeses, da colônia de Carambeí. Seu primeiro contato com o paisagismo foi em 2001, quando foi convidada para implantar um projeto de outra paisagista. Já formada em agronomia, ela experimentou novas formas de aplicar seu conhecimento e se apaixonou. Desde então seguiu se profissionalizando na área e se dedicando a novos projetos envolvendo o paisagismo.

Em seu trabalho, ela preza muito por trazer a cultura e os valores do cliente para o jardim, seja uma família ou uma empresa. “Dessa forma colocamos a identidade do cliente no jardim, e as pessoas quando visitam percebem que este local é diferente.”

Esta coluna foi uma parceria da Dorothi com a Chris Lara, para o Papo de Paisagista. Uma forma de compartilhar novas histórias e apresentar projetos e jardins inspiradores.

Imagens: Geraldine Bouwman

Sítio Roberto Burle Marx – por Juliana Freitas

Já faz tempo que eu estou com vontade de mostrar para vocês um lugar que, pelo olhar de uma paisagista, é o verdadeiro paraíso na terra, o Sitio Roberto Burle Marx no Rio de Janeiro.

Burle Marx morou no Sitio de 1973 à 1994 onde colecionava e “experimentava” o plantio de diversas espécies principalmente nativas, pintava, esculpia, cozinhava e curtia a vida !!!

O sítio tem 400 mil m² e um acervo botânico e paisagístico com aproximadamente 3.500 espécies, hoje é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e considerado um Patrimônio Cultural Brasileiro, onde acontecem diversas atividades culturais.

Espelho d´água em frente à residencia de Burle Marx – foto por Juliana Freitas

A visitação é guiada e com hora marcada mas, enquanto você não se programa para fazer esse passeio incrível, eu te mostro um pouquinho pelas fotos que fiz quando estive por lá… e olha que num lugar desses nem precisei ser muito profissional da fotografia para conseguir lindas imagens, obviamente !!!

E aí, deu pra curtir um pouquinho dessa maravilha? Eu já visitei algumas vezes e sempre me emociono.

É um lugar que me encanta e me deixa mais otimista, alegre e GRATA pela vida… de onde saio mais FELIZ e inspirada para praticar o meu propósito.

Para mim, as paisagens do sítio conectam o tempo todo o olhar com a BELEZA e consequentemente, o coração com a PUREZA divina.

Espero que tenham curtido…  e até nosso próximo Papo!!!

A neutralidade da natureza – poema por Rachel Castanheira

A natureza não compete
Ela compartilha
A natureza não polui
Ela enriquece
A natureza não julga
Ela neutraliza

Sentir a natureza
É sentir nossa essência
É sentir o que vem do coração
Sentir a alma

Como sentir a natureza?
Não existe um como
Reaprender a escutar o coração
Deixar sentir o vazio
Contemplar a paisagem

Sem julgamento
Sem expectativa
Apenas sentir

Quarentena, o despertar para o que faz sentido – por Helena Justo

Essa quarentena trouxe reflexões e certezas para a minha vida. Nos últimos 50 dias de isolamento, passei por várias experiências que me conectaram ainda mais com o meu lado espiritual. Meditei com frequência, busquei o autoconhecimento e apliquei reiki à distância. Uma das certezas que vou carregar daqui pra frente é que desejo cultivar cada vez mais as boas parcerias. Sempre achei que o Sol nasce para todos, que cada profissional tem seu espaço, que todos nascemos para brilhar. Nesse cenário, portanto, não há espaço para competição entre os profissionais e sim troca de experiências, trabalho colaborativo e soma de conhecimentos.

Em total sincronicidade com essa certeza, na semana passada, a minha amiga paisagista e parceira de trabalho Aline Famá, me falou sobre SORORIDADE, um conceito que tem sido muito divulgado e defendido.  De uma forma bem simplificada, significa a solidariedade e união entre as mulheres que partilham dos mesmos objetivos e propósitos. No início achei que fosse um movimento feminista, mas não é… vai muito além. É o caminhar de mãos dadas para um bem maior.

Alguns exemplos? Iniciativas de clientes, como o projeto Mulheres Empreendedoras da Luiza Helena Trajano para fomentar o empreendedorismo feminino e o projeto Olhar do Sertão, que ajuda as mulheres rendeiras. E, foi por causa desta sororidade, que a Aline me convidou no final do ano passado para desenvolvermos juntas o projeto de um Jardim Sensorial. E é com ela também que darei continuidade a este papo de hoje.  

Foto: Juliana Freitas

De forma colaborativa, unimos forças. Cada uma com sua expertise! Conseguimos criar um ambiente bonito, convidativo e ao mesmo tempo funcional. Nossa preocupação foi viabilizar as necessidades e preferências dos moradores em um espaço com apenas 30 m².

Sensações por toda parte

Fonte, jardim vertical, forno de pizza, ervas e muitas vegetações… esses foram os pedidos dos moradores.

Acolhemos o desejo do cliente e fomos um pouco além. Conseguimos envolver neste projeto os quatro Elementos da Natureza e despertar os cinco sentidos dos moradores. A ideia foi criar sensações e emoções agradáveis por meio de experiências que ligam o corpo, a mente e o espírito.

Vejam o antes e o depois do ambiente:

Fotos: Aline Famá
Foto: Aline Famá

Para alcançar o resultado desejado, abrimos canteiros no piso, repaginamos a churrasqueira, escolhemos um revestimento único para o piso, bancada, churrasqueira e forno de pizza, incluímos azulejo hidráulico, iluminação de jardim e colocamos um pergolado para dar abrigo nos dias de chuva e servir de suporte para a trepadeira florífera. 

E vocês devem estar se perguntando: Por que esse ambiente foi denominado jardim sensorial? É simples! Quando os moradores saem no quintal, automaticamente os 5 Sentidos ficam bem aguçados ao serem associados aos 4 Elementos:

Terra

Está representada em todos os cantinhos do projeto com várias vegetações em vasos, canteiros e um belíssimo jardim vertical. É exatamente a terra que estimula as primeiras sensações.

Água

Criamos um espelho d´água com uma fonte de Buda para estimular os sentimentos e emoções.

Fogo

Reestruturamos a churrasqueira e colocamos um forno de pizza. O fogo estimula a intuição e a ação. 

Ar

Contamos com a ação do vento, responsável por estimular os pensamentos.

Foto: Aline Famá

Na prática, o despertar dos cincos sentidos se traduz com muita facilidade, por meio das características e disposição das plantas.

Visão

As diferentes texturas e cores das vegetações ajudam a criar sensações visuais.

Foto: Aline Famá
Foto: Aline Famá

Tato, Olfato e Paladar

Acrescentamos as ervas aromáticas em vasos num canto especial do projeto. Além de perfumarem o ar, podem ser degustadas e representam um convite permanente ao toque.

Foto: Aline Famá

Audição

O espelho d’água com a fonte do Buda foi o ponto de partida deste projeto. O barulho e movimento da água trouxeram mais vida ao ambiente e zelam por toda a energia que ali circula. A água desperta emoções, trazendo suavidade, calma e equilíbrio aos moradores. 

Foto: Aline Famá

Então… Se, além de estimular o bem-estar e a contemplação, vocês quiserem também despertar os cinco sentidos em seus projetos utilizem: ervas, frutíferas, ornamentais de diferentes cores e texturas, fonte, espelho d’água, pedras e lareira.

Gostaram? Contem para nós. 

Aahhh e mais uma dica importante: se unam e se ajudem. Sem o outro, sem carinho, sem colaboração, sem amizade e sem verdade não chegaremos a lugar algum, se renovem!

A história do jardim – por Chris Lara

Como o storytelling pode te ajudar a conversar com seu público

Quem não gosta de uma boa história? As narrativas são parte da nossa forma de se relacionar com o mundo desde sempre.  Em casa, nas escolas, nos livros, nas telas. O próprio paisagismo tem sua história. Personagens, mudanças na forma de pensar e interagir com o ambiente, diferentes momentos do homem e a sua relação com o jardim.

As histórias marcam. Por isso elas vêm sendo usadas também pelas marcas para dar significado ao seu negócio e se conectar.  Se a técnica de storytelling – traduzido do inglês como narrativa – vem sendo amplamente usada no mundo da publicidade para falar de itens como carro e até mesmo margarina, imagina o que não é possível criar quando falamos em jardins.

A história de um jardim, seja em uma apresentação de projeto ou em um dialogo nas redes sociais, pode ser um convite a um passeio. Ao falar de um jardim, independente do tamanho, falamos de pessoas, experiências e sensações. Não precisa de muito esforço para humanizar um contexto com estes elementos.

Conte a sua história

A história focada na marca, seja ela uma empresa ou pessoa, responde perguntas aparentemente simples: quem é você e como você pode ajudar as pessoas. Seria uma forma de compartilhar “o porquê você se importa”. Uma oportunidade de criar conexão de valores.

A história dos seus projetos

Todo projeto é uma história por si só, que apresenta em seu enredo desafios, desejos e como estes foram solucionados e atendidos. Quando olhamos por essa perspectiva percebemos que a resposta para a pergunta “porque você escolheu aquelas espécies?” pode ir além dos conceitos técnicos, como plantas de sol ou meia-sombra, e render uma boa narrativa.

Por trás da história do jardim

A planta, o gato, o vaso que era da avó, a muda que foi um presente, os momentos que já foram vivenciados e os que ainda estão por vir. Grande parte do trabalho como contadores de histórias vem do saber ouvir com atenção. A reunião de briefing pode te render mais do que anotações no caderno.

Vou te contar uma história!

E para deixar este artigo bem real, te convido para conhecer a minha história. Em cada texto que escrevo para o Papo de Paisagista compartilho um pouco de quem eu sou e da minha forma de enxergar o paisagismo como uma profissão linda e muito importante. Mas desta vez senti que poderia ir um pouco além, me abrir um pouco mais.

Por isso gravei um vídeo contando um pouco da minha história. Falo sobre a minha relação com o paisagismo, como tudo começou e para onde estamos indo. Veja no IGTV do @jardimavista

Como eu acredito que a comunicação é um caminho de mão dupla, caso seja inspirado por esse artigo a contar novas histórias, peço que compartilhe a experiência comigo, me marcando ou enviando por mensagem. Vamos fazer uma rede de histórias de jardins.

Árvores em Espaldeira…no jardim? por Dorothi Bouwman

Um tipo de condução de árvores muito antiga, presente nos jardins formais nos castelos europeus assim como nas propriedades rurais. Nos jardins dos castelos as árvores obedeciam ao desenho retilíneo e eram podadas na altura e largura desejada. Muito comum a beira de caminhos nos arredores do castelo. Além disto no pomar estavam as frutas conduzidas em espaldeira como na “Potager du Roi” (A horta do Rei) do Palácio de Versalhes.

Já nas propriedades rurais o funcional é o que manda, nestes locais não se pensava muito na beleza ou se era chique ter uma espaldeira no jardim. A função principal é de sombreamento plantada na face sul das residências ou para refrescar ambientes onde era fabricado o queijo e a manteiga.

A árvore mais antiga e mais conhecida na Europa para este tipo de condução é a Tilia sp (várias espécies dela são boas para ser conduzidas em espaldeira) da família das Malvaceas.

 Esta arvore tem história e significado, para se ter uma ideia na Holanda uma tília foi plantada quando a princesa real Amália nasceu em 2003. Na Idade Média reuniões e julgamentos eram feitas sob a sombra dela (“judicium sub tília”), daí vem a palavra latina subtilis e no português sutil. Ela também é indicadora de solo fértil, por isso era preservada e valorizada nas áreas rurais e consequentemente utilizada para estas reuniões. Sob uma tília era proibido mentir, por isso ela também foi plantada nas praças para as reuniões e julgamentos. Que tal plantar uma espécie nativa brasileira nas praças com esta mesma função….?

A imagem antiga mostra uma tília na praça da cidade de Eindhoven na Holanda que era usada justamente para este fim.

Voltando às espaldeiras, me empolguei com a história da tilia…

E hoje? Qual a utilidade e a aceitação deste tipo de condução?

Na Europa é muito fácil encontrar a espaldeira nos jardins das cidades e na área rural. As árvores mais utilizadas são as Tilias, alguns tipos de Acer, Platanos, Photinea, Liquidambar, Oliveiras , Carvalhos, árvores do gênero Fagus, Carpinus  além das frutas da família Rosaceae como a Macieira e a Pereira.

E aqui no Brasil nós utilizamos a espaldeira também! Na viticultura a espaldeira é muito comum porque é uma opção mais barata que a condução em latada e a incidência de luz e os tratos culturais são favoráveis neste sistema.

Nos jardins é pouco utilizada por aqui, não temos esta cultura de conduzir arvores desta forma. As nossas árvores são plantadas e crescem livremente sem, ou quase sem, interferência humana. Mesmo assim entendo que as espaldeiras são elementos interessantes dependendo do estilo de jardim, do espaço disponível, da espécie que um cliente quer neste espaço, da função que ela pode exercer. Já tive a oportunidade de fazer um jardim em frente a um parque com arquitetura holandesa, nesta espaldeira utilizei a Photinea x fraseri . As fotos não estão muito boas, mas dá pra ter uma ideia da arquitetura e da condução.

Em países onde ela é muito utilizada elas são vendidas já tutoradas e podadas. A muda já vem pronta, é só continuar a condução ao longo do crescimento.

A espaldeira é funcional e decorativa , veja o que podemos fazer com elas.

PRIVACIDADE E SOMBREAMENTO

FRUTÍFERAS QUE CABEM NO SEU JARDIM

DECORAR UM MURO

MAIS INSPIRAÇÕES

Caso tenha interesse em aprender mais entre com a palavra “Leibomen”( holandês ) ou “Espalier” (inglês ) no Pinterest, tem até dicas de poda e como conduzir.

O que achou? Ultrapassado? Brega? Só para jardim europeu? Artificial?  Prático? Muita manutenção? Lindo? kkk 

Independente da nossa avaliação brasileira, a espaldeira (até rimou) pode ser uma opção e ah….resolver aquele dilema de quando o cliente quer porque quer um plátano em um jardim pequeno!!

Um abraço a todos!!

Bibliografia:

https://www.zeeuwseankers.nl/verhaal/leilindes

http://boerderijtuinen.blogspot.com/2015/12/betekenis-van-de-lindeboom-op-het.html