Escolhemos abrir este artigo com uma galeria de fotos de três ciclos diferentes do Jardim de Sequeiro da UnB para gente ficar na mesma página desde o início: o jardim de sequeiro é inspirador. E tem mais, seu potencial como proposta para criação de paisagens naturais, vai muito além da beleza.
Em 2023 tivemos a oportunidade de conhecer de perto esta iniciativa durante visitas à UnB e ao Inhotim, e reunimos neste artigo algumas informações e links para quem quiser, assim como nós, se apaixonar pelo Sequeiro.
O que é o Jardim de Sequeiro
O Jardim de Sequeiro é um jardim temporário, que nasce, cresce e floresce em poucos meses. Sem irrigação, aproveita as chuvas e seca com a chegada do inverno, adequando-se à paisagem do Cerrado e suas estações.
Inspirado em uma linguagem naturalista, o jardim pode mesclar plantas de ciclo curto que apresentam tempo de crescimento e floração diferentes, criando uma dinâmica para o jardim ao longo do período.
O projeto é criado para ser um jardim redesenhado a cada ano. O plantio é feito por semeadura direta, no começo do período das chuvas. A partir daí, cada espécie vai crescendo e florescendo no seu tempo, em uma sucessão de florações até o início do período de seca.
Para que a renovação do jardim ocorra anualmente, as sementes que ali germinam são aproveitadas a partir de colheita durante o inverno, estação seca em regiões de Cerrado. Porém, como é um jardim de caráter experimental, novas espécies podem se introduzidas a cada ciclo, o que deixa a proposta ainda mais inovadora e atraente.
Um convite a um novo olhar
A proposta de um jardim de ciclo curto, que não vai estar exuberante o tempo todo, pode gerar um pouco de resistência em alguns. Mas além do fato de ser um jardim sustentável e mais econômico, inclusive para grandes áreas, já que o plantio é por semeadura e por não demandar irrigação, o Sequeiro é um convite para a observação e contemplação dos ciclos da natureza. Um jardim que encanta quando está florido e mantém sua beleza com os tons secos no período em que a chuva é escassa.
Para nós paisagistas, um convite a uma nova forma de criação da paisagem, com plantas que muitas vezes são deixadas de lado justamente por terem um ciclo curto.
Este modelo é inspirado em jardins naturalistas adotados em outros países, e aqui vem sendo estudado a fundo pela equipe da UnB, com a coordenação do professor Júlio Pastore, e há dois anos também está sendo adotado no Inhotim, com apoio do Júlio.
Em 2022, o caráter inovador desse projeto foi internacionalmente reconhecido na V Bienal Latino-americana de Arquitetura de Paisagem. Pelo potencial deste modelo, sabemos que este reconhecimento é apenas o começo. Ainda teremos muitos Sequeiros por aí.
Jardim de Sequeiro UnB – onde tudo começou
O Jardim de Sequeiro da UnB foi implantado no vão central do Instituto Central de Ciências (ICC) – edifício icônico da arquitetura moderna brasileira, projeto de Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima (Lelé), de 1962. Com mais de 5.000 m² de área plantada sobre laje, o jardim inteiro cresce sobre fina camada de terra, de 20 centímetros no topo a 40 centímetros no fundo das calhas.
Seu primeiro ciclo foi nas chuvas de 2020/21. Semeado em dezembro de 2020, com ressemeaduras pontuais até fevereiro de 2021, floresceu até maio de 2021, quando o período de seca começou. Apesar das dificuldades, próprias das novidades, os resultados foram consistentes. O que fez com que a equipe abreçasse novos desafios a cada ano.
Em 2023 a equipe da UnB implantou o 4o ciclo, sempre tendo o projeto Sequeiro como um tema trabalhado dentro das salas de aulas, estendendo inclusive para outras pessoas participarem. A lista de lições aprendidas desde o início do projeto é enorme: vai desde espécies que não deram o resultado esperado, passando pela forma da semeadura, a criação das manchas desenhadas para criar volume e o movimento esperado, incluindo até questões relacionadas a manutenção e controle pós plantio.
A boa notícia é que tudo é compartilhado e no final deste texto vamos deixar alguns links úteis.
Do planting design à semeadura
Não há como não se encantar com a ideia de criação de um jardim colorido e cheio de movimento. A imagem abaixo, postada no perfil do Instagram do Jardim Sequeiro, representa algumas das muitas pranchas desenhadas para materializar a quarta edição do Sequeiro da UnB.

Cada um dos 26 módulos apresenta algumas dezenas de pequenas áreas demarcadas, cada uma com um percurso próprio de cores previsto ao longo do ciclo, que resulta da combinação de sementes utilizadas.
Na lista de espécies escolhidas estão as anuais coreopsis tinctoria (margaridinha-escura), zinnia elegans, linum usitatissimum (linhaça), e algumas nativas como o loudetiopsis chrysothrix (capim brinco de princesa), andropogon leucostachyus (capim membeca) e o andropogon bicornis (capim rabo-de-burro).
A área de cada uma destas manchas foi calculada, tabuladas em uma complicada planilha eletrônica. A partir daí, então, para cada uma, um saquinho contendo a quantidade exata de cada espécie que compõe seu mix. A cada ano, tem sido aproximadamente 500 saquinhos.
Projeto e sementes em mãos, é a hora de demarcar na terra do jardim temporário. As sementes são distribuídas cuidadosamente nas suas áreas destinadas. No cilco de 2023 foram semeados, por alto, 35kg de sementes nos 5.000m2 que compõem os canteiros sobre laje do vão central do ICC. Um jardim grandioso em todos os sentidos.
Jardim de Sequeiro Inhotim – aberta a temporada do segundo ciclo
O projeto nasceu da parceria da equipe da UnB e do Inhotim. A equipe do Prof. Júlio Pastore, contribuiu não apenas com a transferência da tecnologia, mas com a mão na massa. Na primeira semana de dezembro de 2022, nasceu o Jardim de Sequeiro do Inhotim, ocupando uma área de cerca de 3.000
metros quadrados no Viveiro Educador. Sua implantação durou 6 dias consecutivos e foi o resultado de um esforço coletivo de cerca de 30 pessoas, entre colaboradores do Inhotim e voluntários da UnB.
Conjugadas com espécies precoces e tardias, o jardim recebeu diferentes gramíneas nativas do Cerrado, como o capim-carrapato (Aristida flaccida), o capim-rabo-de-burro (Aristida riparia) e o capim-orelha-de-
-coelho (Paspalum stellatum). Cada um deles comprova que há muita beleza nas gramíneas, sobretudo, nos capins do Cerrado.
Na primeira semana de dezembro de 2023 a equipe da UnB voltou ao Inhotim para acompanhar de perto a semeadura do segundo ciclo. Tivemos a alegria de participar do dia da semeadura, que na verdade é um marco de um longo processo de estudo, planejamento e preparação.
Assista o vídeo que gravamos com depoimentos de parte da equipe durante a fase final da semeadura.
Se depender do Papo de Paisagista, o Jardim de Sequeiro vai ganhar uma #comunidade de fãs. Esperamos voltar em breve e compartilhar aqui as novas etapas e projetos do Sequeiro.
Para se aprofundar no tema e acompanhar as novidades (sempre tem!) do Jardim de Sequeiro
Artigo: Como nasceu o Jardim de Sequeiro
Perfil Jardim Sequeiro no Instagram
Canal do Youtube do Jardim de Sequerio
Livro Ser do Cerrado: Saberes e diversidade no jardim do Inhotim








