Olá queridos e queridas paisagistas. Que prazer estar aqui novamente me encontrando com vocês através desta coluna. Espero que todos vocês que me lêem neste momento estejam bem, com saúde e conseguindo atravessar da melhor forma possível este momento que vivemos. Hoje quero conversar com vocês sobre um filme que me inspirou muito a fazer exatamente isso – viver da melhor forma possível este momento que vivemos.

Estou basicamente apaixonada por esse filme e acredito que ele contém insights valiosos para nós que procuramos desenhar estilos de vida urbanos mais integrados com o bem-estar (seja através de boas histórias, como eu, ou através das plantas embelezando os espaços, como vocês). O filme se chama Um Dia Lindo na Vizinhança e foi lançado no Brasil ano passado. Caso você ainda não tenha assistido, prometo dar meu melhor para não deixar passar nenhum spoiler. Mas, assim, assista! Sério! É imperdível.

O filme conta a história verídica do Mr. Rogers, um apresentador de programas infantis de televisão que esteve no ar em canais públicos dos Estados Unidos de 1968 a 2001. A essência do trabalho do Mr. Rogers era ensinar as crianças a lidarem com emoções e situações difíceis, para minimizar a criação de traumas e ajudar a criar adultos emocionalmente maduros e saudáveis. Para isso, ele contava algumas histórias reais, fazia apresentações com fantoches e trazia convidados para oferecerem performances artísticas.

O jeito que Mr. Rogers encontrou de fazer esse trabalho em um programa de televisão foi utilizar a metáfora da vizinhança. A abertura do programa mostrava uma maquete de uma pequena cidade e a câmera ia se aproximando de uma casa. Então, a cena cortava para o interior dessa casa, cenário de onde Mr. Rogers fazia seu programa. Todos os convidados que trazia, ele tratava como “vizinhos”.

Esse programa educativo, que ia ensinando as crianças a lidarem com emoções e sentimentos difíceis – há diversos relatos de milhares de crianças que foram ajudadas por ele – mostrava também que o mundo era um lugar com muitos vizinhos interessantes, criativos e incríveis, que valia a pena conhecer. A mensagem de que a vida tem muitas surpresas agradáveis e vale a pena ser explorada ficou gravada em todos que acompanhavam o programa. Em sua vizinhança, Mr. Rogers mostrava a importância de aprendermos a cultivar uma vida mais comunitária, pois nós humanos somos programados para nos conectarmos com outros humanos através dos mais diversos tipos de relações.

Talvez esse tenha sido um dos nossos grandes aprendizados nesta pandemia que já dura quase dois anos: a importância das relações. No fim das contas, é isso que nos segura, família, amigos, parceiros de trabalho, irmãos espirituais, as pessoas ao lado das quais escolhemos caminhar para evoluir neste planeta.

Compreender isso me parece especialmente importante para todos os profissionais responsáveis por desenhar nosso estilo de vida em cidades. Arquitetos, urbanistas, geógrafos, servidores públicos e, claro, paisagistas – creio que vale a pena todos entrarem em contato com o fato de que nós humanos temos um mundo interno, e compreender que é tão importante saber trabalhar com ele quanto saber fazer intervenções nas estruturas do mundo externo.

Compreender, ao menos em algum grau, a dinâmica das emoções, das relações, da formação e da cura dos traumas, é fundamental para quem se propõe a desenhar e construir paisagens e/ou estruturas onde humanos irão viver, ou por onde irão passar. O que estou dizendo é que a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo têm uma dimensão concreta – o planejamento de um espaço, a escolha dos materiais, a construção, o acabamento, a manutenção – mas têm também uma dimensão sutil – as sensações que esse espaço irá trazer, o tipo de interação que irá incentivar, a conexão e o impacto dele com seu entorno, a experiência que proporciona a todos que estiverem ali. Essas duas dimensões estão sempre juntas e dificilmente um projeto será bem sucedido se não estiver afinado em ambas. Acredito que esse filme traga insights e lições valiosas para nos aprofundarmos nesta dimensão sutil da arquitetura e do urbanismo. E você, concorda? Se assistiu, me conta o que achou? Ah, e conte também se você tem vontade de ler mais sobre o urbanismo sutil. Talvez este seja o tema da minha próxima coluna. Nos encontramos lá, até daqui a um mês!


NATÁLIA FONTES GARCIA é jornalista e escritora. Investigou, em mais de 100 destinos pelo mundo, novas e melhores formas de viver em cidades. É criadora da consultoria de inovação urbana para pessoas e organizações A Nova Cidade. E é também autora do livro Sete Dias No Butão – O Que Aprendi Sobre Felicidade. 

@nataliagarcia.lampejo

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0 comentários sobre “Um lindo dia na vizinhança – por Natália Fontes Garcia

  • Vivi Mendonça
    Vivi Mendonça disse:

    Lindo texto! Assiti ao filme e é realmente encantador!
    Quanto à dinâmica das emoções e em como os paisagistas ajudam neste sentido, vejo que o design biofílico também está bastante interligado, à medida que promove o bem-estar inerente à nossa formação como ser humano que habita a natureza a milhares de anos.
    Obrigada pela sua mensagem!

  • Luara Richter
    Luara Richter disse:

    Muito bom Natália, parabéns pelo texto e pela reflexão sensível! vou assistir o filme, com toda a certeza!
    Obrigada por compartilhar!

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