Biodiversidade: por que plantar pensando em ecossistemas importa
Uma das primeiras coisas que a Amazônia nos mostrou foi que olhar para uma planta isoladamente é enxergar apenas uma pequena parte da paisagem.
Durante a Expedição Amazônia, no Acre, fomos com um interesse muito grande pela flora. Queríamos reconhecer espécies, observar formas, entender comportamentos. Mas, quanto mais entrávamos naquele território e conversávamos com as pessoas locais, mais uma ideia ganhava força: uma planta nunca é apenas uma planta.
Ela faz parte de uma rede de relações. Sua presença está ligada ao solo, à disponibilidade de água e luz, às outras espécies vegetais e à fauna que pode depender dela para alimentação, abrigo, polinização ou dispersão de sementes.
Essa foi uma das questões que aprofundamos com o professor Marcus Athaydes, da Universidade Federal do Acre (UFAC), com quem tivemos a oportunidade de conversar no último dia da expedição. Marcus desenvolve pesquisas nas áreas de ecologia e anatomia vegetal, etnobotânica e educação ambiental, e trouxe para a nossa conversa algo que continua presente nas nossas reflexões: para compreender uma espécie, é preciso também compreender o ambiente e as relações das quais ela faz parte.
Para quem trabalha com paisagismo, essa reflexão é importante: quando escolhemos uma planta, estamos também interferindo em um sistema.

Nativa, mas nativa de onde?
Felizmente, temos falado cada vez mais sobre a utilização de espécies nativas no paisagismo. Mas “nativa” ainda é uma definição que precisa ser olhada com mais profundidade.
Dizer que uma planta é nativa da Amazônia, por exemplo, não significa que ela ocorra naturalmente em todo o bioma. Solo, água, relevo, clima e as diferentes formações vegetais influenciam diretamente a distribuição das espécies.
Por isso, além de saber se uma planta é nativa, precisamos entender de onde ela é nativa e em quais condições ocorre naturalmente. Uma espécie pode ser brasileira e, ainda assim, estar fora de sua área de ocorrência natural quando introduzida em outra região.
Um trabalho realizado por Marcus Athaydes e outros pesquisadores na área urbana de Cruzeiro do Sul, justamente onde começou nossa expedição, ajuda a dimensionar essa questão.

Biodiversidade também está nas relações
Outro trabalho com participação de Marcus, desta vez sobre as palmeiras do Alto Juruá, ajuda a ampliar esse olhar.
As Arecaceae têm grande importância ecológica, econômica e cultural na região. Espécies como o buriti (Mauritia flexuosa) e o açaí-solteiro (Euterpe precatoria) estão relacionadas à alimentação, ao artesanato e a diferentes usos pelas comunidades.
Mas essas relações não se limitam às pessoas.
O estudo apresenta, por exemplo, a associação da orquídea Vanilla palmarum com o buriti. Uma palmeira que podemos observar por sua forma, porte ou uso também participa das condições de existência de outra espécie.
É um exemplo simples de uma rede muito mais complexa, que envolve plantas, fauna, solo, água, dispersores, polinizadores e também as pessoas que vivem naquele território.
Ao longo da expedição, vimos como o conhecimento das comunidades ampliava nossa própria leitura. Muitas plantas que inicialmente chamavam nossa atenção por uma característica visual passavam a ser compreendidas também pelos seus usos, pelas relações com outras espécies e pelo conhecimento construído em torno delas.
A biodiversidade, portanto, não está apenas na quantidade de espécies de um lugar. Está também na diversidade e na complexidade das relações entre elas, o ambiente e as pessoas.

O que isso muda no paisagismo?
Pensar em biodiversidade amplia os critérios que orientam um projeto paisagístico.
Porte, forma, floração, efeito visual e manutenção continuam sendo importantes, mas entram no projeto junto com outras questões: a ocorrência natural das espécies, sua adaptação às condições locais, as relações com a fauna, a diversidade de estratos e o funcionamento do solo e da água.
Essa é uma discussão que vem ganhando cada vez mais espaço entre nós, paisagistas. Sabemos também que existem limitações reais, principalmente relacionadas à disponibilidade e à produção de espécies nativas. Ainda assim, ampliar o conhecimento sobre elas é parte importante desse processo.
E temos aprendido muito acompanhando o trabalho de Ricardo Cardim, uma das principais referências brasileiras quando o assunto é biodiversidade nativa aplicada ao paisagismo. Seus estudos, projetos e iniciativas vêm contribuindo para ampliar entre nós a compreensão sobre a vegetação original dos diferentes territórios e sobre o papel que o paisagismo pode desempenhar na conservação da biodiversidade, especialmente nas cidades.
Uma das contribuições importantes desse olhar é perceber que não basta incluir espécies nativas em uma lista de plantas. É preciso qualificar essa escolha.
Na prática, isso passa por conhecer melhor a vegetação da região, pesquisar ocorrências, observar remanescentes próximos e entender as condições do lugar. E, a partir daí, pensar composições com diferentes estratos, períodos de floração e frutificação, oferta de alimento e abrigo para a fauna, presença de polinizadores e relações da vegetação com a água e o solo.
Um jardim pode ter muita vegetação e, ainda assim, oferecer pouca biodiversidade. Por outro lado, nossas escolhas podem contribuir para criar mais relações ecológicas mesmo dentro de áreas urbanas.
Não se trata de tentar reproduzir um ecossistema natural dentro de qualquer jardim, mas de reconhecer que o jardim faz parte de uma paisagem maior e se relaciona com o território ao seu redor.
Essa foi uma das reflexões que trouxemos da Amazônia e que queremos compartilhar com outros profissionais.
Quanto mais aprendemos sobre biodiversidade, mais percebemos que projetar com plantas também exige compreender as relações que podemos preservar, favorecer ou ajudar a construir.
Para saber mais
**Percepção Popular sobre Invasões Biológicas no Acre:**
* AMORIM, Marla Daniele Brito de Oliveira; OLIVEIRA, Igor; LIESENFELD, Marcus Vinicius de Athaydes. **Popular knowledge and perceptions of invasive exotic species in Acre, Brazil**. *Revista Brasileira de Ciências Ambientais*, v. 59, e1762, 2024. DOI: https://doi.org/10.5327/Z2176-94781762
**Levantamento de Espécies Invasoras na Área Urbana de Cruzeiro do Sul:**
* LIESENFELD, Marcus Vinicius de Athaydes; SOUZA, A. C.; AMORIM, Marla Daniele Brito de Oliveira. **Invasões biológicas: espécies de plantas invasoras ocorrentes na área urbana de Cruzeiro do Sul, Acre, Brasil**. In: LIESENFELD, M. V. A.; SOUZA, R. M.; SILVA, J. A. C.; ARAÚJO, E. A. (Orgs.). *Ciências Ambientais na Amazônia*. Rio Branco: Strictu Senso, 2022. p. 96-113.
**Estudos sobre Palmeiras (Arecaceae) e Relações Ecológicas no Alto Juruá:**
* LIESENFELD, Marcus Vinicius de Athaydes e colaboradores. **Estudos florísticos e etnobotânicos sobre a importância ecológica, econômica e cultural das Arecaceae (como *Mauritia flexuosa* e *Euterpe precatoria*) e interações com a flora epífita (*Vanilla palmarum*) no Alto Juruá, Acre.**
**Referência em Paisagismo e Biodiversidade Nativa:**
* CARDIM, Ricardo. **Paisagismo Sustentável para o Brasil: integrando biodiversidade nativa e ecologia aos ambientes urbanos**.
