Por Ana Lui – Engenheira Paisagista

Entre os dias 25 e 27 de fevereiro, a Universidade de Brasília (UnB) sediou a Escola de Verão AUGM — Jardins Naturalistas na América Latina: Paisagem e Biodiversidade. O encontro reuniu paisagistas, pesquisadores e profissionais de diferentes países latino-americanos para discutir plantas nativas, composição naturalista, manejo sustentável e desenho ecológico sob uma perspectiva regional.

Mais do que um congresso técnico sobre paisagismo naturalista, o evento provocou uma reflexão necessária: estamos projetando jardins adaptados ao microclima ou apenas instalando sistemas de irrigação para que sobrevivam apesar dele?

Paisagismo naturalista e mudanças climáticas

As discussões deixaram evidente que, diante das mudanças climáticas e da crescente escassez hídrica na América Latina, já não faz sentido insistir em modelos de jardins dependentes de alto consumo de água.

Experiências apresentadas por profissionais do Chile, México, Uruguai, Argentina e Brasil demonstraram resultados consistentes quando o desenho do plantio parte da ecologia das comunidades vegetais — e não de referências estéticas importadas, desconectadas do bioma local.

Entre os palestrantes estavam Amalia Robredo, Cristobal Elgueta, Fernanda Rionda e Mariana Siqueira, coordenados pelo brasileiro Julio Pastore. Em diferentes contextos climáticos, todos reforçaram a importância de integrar ciência, cultura e paisagem no desenvolvimento de projetos mais resilientes.

Projetar no Cerrado: aceitar a sazonalidade

Para quem atua no Cerrado, o desafio é ainda mais profundo. Projetar com coerência ecológica significa compreender a dinâmica do bioma: a estação seca, as fases de dormência, as mudanças de textura e coloração ao longo do ano.

Um jardim adaptado ao clima não precisa estar permanentemente verde para ser belo. Ele precisa estar equilibrado com seu território. Precisa expressar o ciclo completo da vegetação, inclusive seus momentos de recolhimento.

Aceitar a sazonalidade é parte do amadurecimento do paisagismo contemporâneo.

jardim de cequeriro UNB

Entraves estruturais: estética e mercado

Ainda enfrentamos dois obstáculos importantes para a consolidação do paisagismo ecológico na América Latina:
– A expectativa estética de exuberância contínua, muitas vezes alimentada por referências estrangeiras.
– A baixa oferta de espécies nativas no mercado produtor.

Sem o fortalecimento da cadeia produtiva de plantas nativas, o discurso ambiental permanece frágil na prática. Não se trata apenas de intenção projetual, mas de disponibilidade real de material vegetal adequado.

Paisagismo contemporâneo e responsabilidade climática

Eventos como a Escola de Verão AUGM cumprem um papel estratégico ao promover troca técnica, atualização científica e integração regional entre profissionais da paisagem.

Eles nos lembram que o paisagismo contemporâneo precisa ir além da estética. Projetar jardins hoje implica assumir responsabilidade ecológica e climática.

Adaptar-se não é tendência. É maturidade profissional.


Ana Lui é paisagista formada pelo IBRAP, com formação em Engenharia e pós-graduação em Design de Interiores.
Atua no desenvolvimento e implantação de projetos de arquitetura de exteriores, integrando técnica, botânica e linguagem arquitetônica.
Seu trabalho é orientado pela Arquitetura da Paisagem como estrutura do habitar — jardins pensados para viver, sentir e permanecer.

Site https://analuipaisagem.com.br/
Instagram @analui.paisagem

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