Olá queridos e queridas paisagistas, que alegria estar aqui novamente, após um hiato de algumas semanas nesta coluna. Acredito que, assim como eu, você também esteja passando por experiências profundas e transformadoras em sua vida, com muitas mudanças acontecendo (ou precisando acontecer) e, por isso, o dia-a-dia fica apertado. Então, quero começar te contando que reorganizei minha agenda de publicações por aqui e, a partir de agora, nossos encontros serão mensais. Combinado?

Mas, voltando ao assunto, eita momento desafiador este que estamos vivendo, não é? Sistemas colapsando, incerteza, aumento da miséria e dos transtornos mentais, sem mencionar esta que provavelmente é a pior crise sanitária da história da humanidade: a pandemia. Mas, ao mesmo tempo, acredito que estamos diante da maior oportunidade que já tivemos. A oportunidade de admitirmos que os sistemas que criamos para organizar a vida humana têm profundas falhas. E, portanto, a oportunidade de repará-las.

Para falar sobre isso, quero te contar sobre um lugar muito especial que eu tive a oportunidade de conhecer recentemente: o Reino Encantado do Butão. Um pequeno país envolto pela cordilheira dos Himalaias, que fica entre a Índia, a China, o Nepal e o Tibet. País pequeno, mas grandioso em suas lições.

Na década de 70, o rei do Butão saiu em uma viagem pelo mundo para visitar países em busca de inspiração para seu governo. Uma das coisas que ele percebeu foi que todos os países usavam a mesma régua para medir desenvolvimento – o índice do Produto Interno Bruto (PIB). Basicamente, o PIB indica a quantidade de produtos e serviços produzidos em um país ao longo de um ano. Foi um índice criado após a segunda guerra mundial para ser um motor de reaquecimento da economia e reconstrução dos países que ficaram destruídos – e funcionou muito bem para esse fim.

Mas, como bem observou o então rei do Butão já naquela época, o PIB não é uma métrica suficiente para medir desenvolvimento, porque não dá para garantir que os produtos e serviços produzidos tenham qualidade e façam bem à pessoas. Há países por exemplo com um bom PIB, mas onde as pessoas não dormem bem à noite, as cidades têm suas ruas lotadas de congestionamentos, e os índices de ansiedade e depressão são altos.

Pensando nisso, o rei do Butão encomendou a criação de um novo índice para medir a felicidade humana. Alguns anos depois surgiu o FIB, Felicidade Interna Bruta. O FIB mede não apenas o crescimento econômico como também o bem-estar psicológico, a qualidade de como as pessoas usam seu tempo e a vitalidade comunitária nas cidades e nos bairros. Desde que fiquei sabendo dessa história, em 2009, tinha muita vontade de conhecer o Butão. Eis que, em 2019, tive essa oportunidade.

Tudo no Butão me impressionou. A arquitetura cheia de beleza nos mínimos detalhes em absolutamente todas as construções – prédios, casas, templos, parlamento político, até o aeroporto é maravilhoso –, a docilidade e amorosidade dos butaneses, a seriedade com que eles procuram desenvolver uma ciência e uma política da felicidade. Mas há um aspecto que sinto que nos interessa em especial aqui para a nossa coluna: 70% do solo butanês é coberto de floresta nativa e os 30% restantes têm grande presença das vegetações naturais do país em meio à cidade. É um país que vive em harmonia não apenas entre as pessoas (dentro do possível, afinal somos humanos!) mas também em relação a outras espécies. Isso é inerente à cultura do Butão, mas descobriram também que essa harmonia com as outras espécies de seres vivos está inerentemente ligada à genuína felicidade humana.

É meio óbvio que somos mais felizes quando cercados de natureza, de verde, das plantas, dos animais. Mas, lá no Butão, esse óbvio vem sendo cientificamente comprovado e cravado como uma diretriz política e econômica. Está na constituição do Butão, por exemplo, que pelo menos 60% do país deve permanecer como floresta nativa para sempre. Imagina só!

O FIB vem inspirando muitos países pelo mundo, que o adotam como uma das métricas importantes em seus governos, e também se tornou um selo corporativo que pode ser utilizado por empresas e um modelo urbanístico que pode nortear a construção e gestão das cidades. No Brasil, por exemplo, temos o Instituto Feliciência trazendo metodologias ligadas ao FIB para empresas e órgãos públicos.

Estou te contando essa história porque, neste momento, sinto que precisamos de inspirações reais, concretas, que possam nortear os próximos passos na reconstrução da nossa forma de habitar esse planeta. E creio que o Butão seja uma inspiração para todos nós. Tanto é que escrevi um livro sobre isso, chamado Sete Dias No Butão – O Que Aprendi Sobre Felicidade. Se você tiver interesse em adquirir um exemplar para saber mais sobre esse assunto, pode me procurar pelo instagram @nataliagarcia.lampejo.

Super abraço, cuide-se e mês que vem nos encontramos novamente!


NATÁLIA FONTES GARCIA é jornalista e escritora. Investigou, em mais de 100 destinos pelo mundo, novas e melhores formas de viver em cidades. É criadora da consultoria de inovação urbana para pessoas e organizações A Nova Cidade. E é também autora do livro Sete Dias No Butão – O Que Aprendi Sobre Felicidade. 

@nataliagarcia.lampejo

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