Sazonalidade no paisagismo – um olhar além da estação – por Chris Lara

Calendário vetor criado por pikisuperstar – br.freepik.com

Trabalhar com paisagismo é aproximar as pessoas do tempo da natureza, um tempo que carrega a sensação de vagarosidade e calmaria. Sem perder de vista esse valor essencial da relação homem x natureza, é possível potencializar oportunidades de negócio olhando um pouco mais para o funcionamento do tempo dos homens. Mais especificamente, para fatores sazonais que movimentam o mercado.

Podemos relacionar a sazonalidade de mercado a diferentes aspectos: clima, estações, calendário escolar, datas comemorativas e até mesmo crises diversas (econômicas, hídricas, políticas). Em todos esses casos, ela indica possíveis variações de demanda por produtos e serviços dentro de um determinado período de tempo.

Variação essa, que pode impactar diretamente o faturamento de um negócio, seja de forma positiva, gerando novas oportunidades, ou no pior caso, negativamente.

Será que os profissionais de paisagismo podem tirar proveito dos aspectos sazonais que vão além da relação das plantas com as estações. Muito provavelmente, sim. Algumas vendas ou contratação de serviço podem surgir em datas como o fim de ano, que se aproxima.

O apelo aqui não é exclusivamente comercial, pelo contrário, ele pode estar muito mais ligado ao bem estar gerado nos encontros e confraternizações. Quem não gostaria de ter a casa linda e bem florida para receber os amigos? Que tal substituir as árvores de plástico por arranjos criados de forma cuidadosa com plantas ornamentais?

Sazonalidade exige planejamento

Seja no fim do ano, na primavera ou em qualquer outra brecha extra que o calendário oferece, para aproveitar melhor todas as oportunidades de venda criadas pela sazonalidade você deve se preparar com antecedência.

Para isso é importante planejamento de ações de marketing. A sugestão é que você crie um calendário com campanhas temáticas e constantes. A partir dele você deve planejar quais as ferramentas de comunicação irá usar para interagir com o seu público, preparar estratégias de preço (caso caiba alguma diferença em relação ao tradicional) e, em alguns casos, se atentar também para questões relacionadas a estoque e capacidade de atendimento.

Vale ressaltar que nem todos os produtos ou tipos de serviços precisam entrar neste planejamento. Essa pode ser a oportunidade de trabalhar com coisas pontuais, como por exemplo, uma consultoria de paisagismo ou a venda de peças para presente e decoração. Dessa forma você consegue gerar oportunidades preservando o resto do seu negócio.

Visita Técnica – Colormix Store recebe Papo de Paisagista

 

Vamos bater um papo com Arthur Grangeia, proprietário da Colormix, sobre: “Criatividade no uso de revestimentos em paisagismo, as diferentes possibilidades para o Design de Exteriores”. Nosso encontro acontecerá no agradável ambiente da Colormix Store localizada à Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1522.

Este é um evento exclusivo para assinantes do Portal Colaborativo Papo de Paisagista e as vagas são limitadas portanto, pedimos que faça sua inscrição (através da opção LOJA) apenas se puder realmente comparecer e, caso tenha algum imprevisto, nos avise com antecedência para disponibilizarmos vagas para a lista de espera.

Pedimos a gentileza da pontualidade para não atrasarmos o início do Talk.

O que vem primeiro, a planta ou o pergolado? por Juliana Freitas

Um jardim aconchegante normalmente tem um lugarzinho para sentar e apreciar a paisagem, observar os detalhes da natureza, curtir um momento de tranquilidade ou reunir pessoas, e para criar esse tipo de ambiente uma boa solução é utilizar os pergolados.

Pergolado em alvenaria com trepadeira Glicínia – Via Pinterest

No entanto, projetar pergolados não é uma tarefa tão simples quanto parece, pois precisamos pensar em muitos detalhes importantes que vão além da implantação (localização no jardim) e envolvem algumas questões técnicas, como definição de área, medida de pé direito, desenho estrutural com materiais apropriados, revestimentos, iluminação, mobiliário e ornamentos.

Para tanto é importante definir primeiramente o uso do espaço. Como será esse ambiente? Será uma sala de estar ou terá apenas uma simples rede de descanso, uma mesa de refeição ou um banco?

Ambiente com mesa e para tanto a sombra foi proporcionada por uma “cortina de flores” da trepadeira Ipomea rubra – Via Pinterest

A funcionalidade do ambiente influenciará em várias decisões como por exemplo a localização no terreno e consequente insolação, as dimensões do ambiente e da própria estrutura e o tipo de cobertura pretendida, que pode possibilitar diferentes situações como uma luz filtrada ou sombra total.

Ambiente Gourmet sob luz filtrada – Via Behance
Redário com o perfume do Jasmim dos poetas – Via Pinterest

Mas a pergunta é: o que escolher primeiro a estrutura do pergolado ou a espécie vegetal que irá cobri-lo?

Não existe uma regra e acredito que isso pode variar de acordo com a criatividade do paisagista, mas no meu caso, quando estou projetando, prefiro escolher primeiro a espécie vegetal para depois desenhar uma pérgola sob medida para ela, criando uma harmonia entre estrutura de apoio e planta trepadeira, tirando proveito do que cada espécie tem de mais interessante para nos mostrar.

Para que vocês entendam melhor o que estou dizendo, vou ilustrar com algumas imagens e explicar alguns poucos exemplos dentre uma enorme diversidade de opções de plantas trepadeiras com características tão específicas e diferentes.

A trepadeira Sete léguas, quando utilizada em pergolados, o objetivo deve ser o visual de cima da cobertura porque as flores se dão na parte de cima e não serão contempladas a partir da visão de quem está dentro do ambiente, embaixo do pergolado de onde só serão vistos os seus galhos.

Portanto essa trepadeira deve ser utilizada para ser vista de uma certa distância ou até mesmo a partir das janelas de um andar mais alto.

Pergolado de madeira com trepadeira Sete-léguas – Via Pinterest

No caso das trepadeiras que florescem em cachos pendentes como é o caso da Jade, Sapatinho de Judia, Brinco de princesa e outras, precisamos explorar a beleza das flores e integrá-las ao ambiente pois elas serão a atração principal e com certeza não vão passar desapercebidas na época da florada.

Pergolado em madeira com trepadeira Jade vermelha – Via Pinterest

Importante lembrar que no caso dessas flores pendentes temos um outro detalhe para pensar que é a circulação das pessoas que vão usar o espaço, portanto nesses casos é interessante criar um pergolado com pé direito mais alto que o padrão conhecido, assim as flores ficam em altura adequada para serem apreciadas mas sem atrapalharem o uso do ambiente.

Pergolado metálico com pé direito alto para a trepadeira Glicínia – Via Pinterest
Pergolado em formato de arco com pé direito alto para a trepadeira Sapatinho de judia – Projeto Juliana Freitas

E como a criatividade é ilimitada os projetos das estruturas podem variar muito e opções de plantas é que não faltam para compor com cada situação.

Tem espécie fácil de conduzir que permitem criarmos um arco na entrada da pérgola, tem espécie de crescimento rápido ou lento e você pode escolher conforme seu objetivo, tem umas mais densas que proporcionam mais sombra e outras mas ralas que permitem mais entrada de luz solar, tem as muito perfumadas, as de perfumes suaves e as que nem perfume tem, enfim… o cardápio é grande e a criatividade também.

Pergolado em arcos metálicos com rosas trepadeiras – Via Pinterest
Pergolado metálica com treliça em apenas metade da área e trepadeira Glicínia – Projeto O’Neill Rose Architects – foto Michael Moran

Portanto, sejamos conscientes e responsáveis para projetar levando em consideração tantos detalhes importantes e assim, realizar sonhos sem criar problemas futuros para nossos clientes.

Até nosso próximo Papo !!!

110 anos de Roberto Burle Marx – por Flávia Nunes

Ser convidada para integrar o grupo de colaboradores do Papo de Paisagista é uma honra pra mim e iniciar esta participação falando de alguém que mudou minha vida é um presente. Meu domingo, 4 de agosto de 2019 foi um dia prazeroso em meio aos livros, revistas, vídeos, afim de trazer pra vocês um texto com o conteúdo além do que tenho gravado em minha mente devido já ter montado tantas aulas sobre o assunto. Confesso que cada vez que paro pra estudar eu me encanto, são detalhes que surgem e aprendo mais e o admiro mais.

Há 110 anos nascia o menino que veio mudar a história do Paisagismo brasileiro, dia 4 de agosto de 1909 em São Paulo, Roberto o 4° filho de Wilhelm Marx e Cecilia Burle. Não se trata da história de superação de uma criança pobre, e sim de um menino que aproveitou as oportunidades que teve desde a infância incentivado pelos seus pais que investiram em educação e cultura, ele cresceu cercado pela arte, sua mãe pernambucana de origem francesa era pianista e gostava de jardim, seu irmão também era musicista amigo de Vila Lobos, Roberto adorava cantar se tornando um excelente barítono. O pai alemão dono de um curtume, após uma crise financeira levou a família pra morar no Rio de Janeiro em 1913. Burle Marx teve um problema de visão e foram pra Europa em busca de tratamento, na Alemanha estudou pintura de 1928 a 1939 e foi no Jardim Botânico de Dahlen, em Berlim, que descobre as estufas e fica impressionado com a beleza das plantas brasileiras. “Eu descobri o Brasil em Berlim”, disse Burle Marx. 

Ao retornar para o Brasil, ingressou no curso de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1930. Após 2 anos faz seu primeiro projeto de jardim para a residência da família Schwartz, arquitetura de Lúcio Costa e Gregory Warchavchick. Com a introdução de plantas nativas no jardim, que foi um de seus diferenciais, tornou-se um marco na criação do Paisagismo brasileiro, antes dele os projetos paisagísticos eram “importados” seguindo estilos europeus, ele também utilizou plantas exóticas que se adaptavam ao nosso clima. Lúcio Costa o convidou pra começar a fazer jardins dos seus projetos de arquitetura e também foi colaborador do arquiteto Oscar Niemeyer.

Em 1934 tornou-se Diretor de Parques e Jardins em Recife, cargo que ocupou até 1937. Como eu sou uma admiradora de Burle Marx quis ir pessoalmente conhecer os trabalhos realizados por ele, e em outubro de 2018 tive a honra de ser guiada por Zenaide Nunes, gerente do Jardim botânico de Recife, vice-presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos que atua como Paisagista em Recife e está recriando o Jardim Botânico do Parque Estadual de Dois Irmãos PEDI, gerente de planejamento e projeto da secretaria de meio ambiente e sustentabilidade do Estado de Pernambuco. Visitei a Praça Euclides da Cunha em homenagem a obra ” Os sertões” e a Praça de Casa Forte.  Em Recife já estão na 11ª edição da Semana Burle Marx com programação de 4 a 28 de agosto 2019.

Praça Euclides da Cunha – Recife. Foto: Marcia Chimenes do Comitê Burle Marx
Praça de Casa Forte Recife Foto: Flávia Nunes

Assistente de Alberto da Veiga Guignard e de Candido Portinari, teve várias fases na pintura e foi um magnífico pintor retratista acadêmico convencional. Em guache sua primeira obra com abstração foi o projeto do Palácio Capanema 1938. No Projeto da residência Odete Monteiro (Fazenda Marambaia) teve total autonomia pra fazer o jardim e foi premiado na Bienal de SP totalizando 18 prêmios somente neste projeto.

Pintura a Guache Projeto Odete Monteiro Foto: Flávia Nunes exposição Pinacoteca SP 2015
Pinturas Burle Marx  no SRBM Foto: Flávia Nunes

Dentre muitos projetos Burle Marx se orgulhava muito do MAM, Largo da Carioca, Petrobrás, Convento de Santo Antônio e Copacabana (Rio de Janeiro).

Aterro do Flamengo Foto: Marina Ribeiro

Em 1949 adquiriu um sítio que atualmente é o Sítio Roberto Burle Marx, um paraíso particular de Burle Marx, onde também estão suas coleções. Fazia almoços, recebia amigos, era exigente na culinária e usava cores na comida. Durante estes eventos ele costumava cantar e gostava de músicas populares e óperas. Sugestão de leitura Livro: “À mesa com Burle Marx” (Pinheiro, Claudia; Dois /um Produções; Modesto, Cecília), que contém receitas que eram servidas aos amigos no sítio com fotografia dos pratos, depoimentos, ilustrações, desenhos, pinturas e anotações de Burle Marx.

Em 1985 doou o sítio pro atual IPHAN, que ao longo destes anos tem mantido com empenho o acervo e organizado eventos voltados pra arte e paisagismo, sendo candidato atualmente a Patrimônio Mundial da Unesco. Agendem uma visita pelo telefone (21) 2410-1412, o sítio Burle Marx fica na Estrada Roberto Burle Marx 2019 Barra de Guaratiba – Rio de Janeiro. Nos arredores  fica localizado o Polo de Gastronomia e Polo de plantas ornamentais, pra mim um legado de Burle Marx pra essa região que antes de sua chegada era produção agrícola. Indicação de leitura “O velho oeste Carioca” (Mansur, André Luis). 

SRBM. Foto: Flávia Nunes
SRBM. Foto: Flávia Nunes

Em 1955 fundou seu escritório de Paisagismo, Burle Marx & Cia Ltda, onde os arquitetos José Tabacow e Haruyoshi Ono colaboraram por anos. O escritório continua funcionando em Laranjeiras desenvolvendo projetos nacionais e internacionais coordenado por Isabela Ono, Julio Ono e Gustavo Leivas que preservam os conceitos criativos de Haruyoshi e Burle Marx. 

Roberto Burle Marx, o mestre que inspira tantos paisagistas respirava arte, atuava em vários campos artísticos: pintor, ceramista, desenhava para tapeçaria, designer de jóias, cozinhava, falava 7 idiomas, produziu cenário para o Teatro Municipal e jardineiro, posso ter esquecido de mencionar mais algum talento. Não o conheci pessoalmente mas através das histórias que me contaram eu faço ideia de quem é esse homem generoso, talentoso, bem humorado. Não esperem de mim falar de qualquer defeito dele. Eu sou uma admiradora… foi através de sua história que tracei um novo rumo pra minha vida. Me fez despertar o amor que sempre senti pelas plantas mas nunca tinha interpretado isso como uma possível profissão. Ele ter ganho uma planta de presente e não ter dormido de tanta alegria, eu entendo perfeitamente.

Alocasia cuprea. Foto: Flávia Nunes

E pra mim ela é a mais importante porque foi a partir dela que iniciou a sua grande coleção de plantas. Falando em coleção, ele colecionava coleções, são tantas… Pedras, conchas, cristais, cerâmica e em sua casa guardam-se preservados sob cuidados do IPHAN. Em sua coleção de plantas, alocadas em sombrais que “protegem plantas de meia sombra” e no seu grande jardim, podemos ver plantas nativas e exóticas, muitas que trouxe de expedições, algumas podem ser assistidas na série “Expedições Burle Marx”, produção Camisa listrada, direção João Vargas (diretor também do filme “Paisagem: um olhar sobre Roberto Burle Marx”). Nestas viagens realizava coletas por diversas regiões e descobriu varias plantas e algumas levam seu nome, exemplo a Dyckia burle-marxii.

“Não seria possível fazer jardins sem aprender a conviver com as plantas” (Burle Marx). Cultivou varias espécies que não tinha no mercado pra usar nos jardins.   

Concha da coleção Burle Marx. Foto: Flávia Nunes
Coleção Burle Marx exposta no ateliê-casa. Foto: Flávia Nunes

Antes de terminar não posso deixar de mencionar sua babá Ana Piacsek, uma das histórias que mais me encantou, pois foi com ela que aprendeu a preparar canteiros e observar a germinação de sementes. Burle Marx tinha um carinho tão grande por ela que foi enterrado junto a ela num cemitério simples de Ilha de Guaratiba.

Finalizo aqui minha singela homenagem a este mestre do Paisagismo com este resumo simplificado de sua história com informações obtidas através de vídeos de entrevistas e livros e pra quem se interessar conhecer mais sobre Burle Marx deixo uma lista de indicação de livros e filmes. 

Indicação de Filme: “Paisagem: um olhar sobre Roberto Burle Marx”  e “Expedições Burle Marx” ambos de direção do João Vargas.

Obrigada e até a próxima!

Honorários de Projeto de Paisagismo – por João Jadão

Tema bastante polêmico em qualquer “papo de paisagista”, honorários de projeto desperta interesse e também aflora opiniões, paixões e confusões por parte do mercado, que nem sempre entende a necessidade da contratação de um projeto (clientes pessoas físicas principalmente).

É preciso esclarecer ao cliente a complexidade das atividades desenvolvidas na elaboração de um projeto, deixando claro suas etapas (Estudo Preliminar, Ante Projeto, Projeto Executivo, Projeto de Plantio, Projetos Complementares, etc.) e de que forma serão apresentadas. 

A formação dos honorários deve considerar a abrangência do projeto, custos diretos e indiretos, encargos sociais, regionalismo, expertise profissional, dentre outros fatores e justamente por isso, diferem a cada caso.

Alguns Conselhos e Associações profissionais tem suas tabelas, que por vezes apontam valores completamente fora da realidade, e por isso devem ser encaradas como um parâmetro na negociação cliente x profissional.

O importante é VALORIZARMOS SEMPRE NOSSA PROFISSÃO, não deixando de cobrar pela elaboração de um projeto de paisagismo, independente da fase de nossa carreira.

A valorização profissional começa por NÓS ! Bons projetos a todos !

O verde é o novo preto! por Vitoria Davies

Na última palestra online organizada pelo Papo de Paisagista, com J. Pompeo como palestrante e Juliana Freitas como mediadora, falou-se sobre modismos no paisagismo – O que explica uma planta cair em desuso, ou uma outra virar ‘moda’?

Finalizada a palestra, fiquei elocubrando sobre essa questão…

Cheguei à conclusão de que é mais fácil identificar o que faz uma planta virar moda, e consigo ver várias razões para isso. Uma delas – a atração exercida pelo inusitado – foi apontada pela nossa mediadora, citando o caso das Aloes thraskii (babosa-gigante) no projeto de Carlos Orsini para a Mostra Black 2012. A planta, por si só, é extremamente escultural, belíssima; soma-se a isso o fato de até então não ter sido usada por paisagistas no Brasil e o modo como foi usada – mudas de 2 m enfileiradas no jardim de entrada da casa. O impacto foi grande. Tornou-se o assunto do dia, e a Aloe thraskii, a nova queridinha dos paisagistas.

Via Casa Claudia

Mas existem também fatores extrapaisagísticos que influenciam essa questão. Não é à toa que, nestes tempos de mudanças climáticas e grandes preocupações ambientais, além da correria da vida nossa de cada dia, os cactus e suculentas tenham virado moda. Contribuem para a economia de água, são resistentes e exigem um mínimo de cuidados e manutenção. A atual preferência por plantas nativas também reflete uma maior consciência ambiental do paisagista e do consumidor.

Terraço inteiro composto de suculentas. Projeto: Vitoria Davies Paisagismo

Nos últimos anos as plantas de interior também voltaram à moda, como nos anos 70, especialmente entre a Geração Y – os nascidos entre 1980 e 2000 –, tendência essa verificada no Instagram, com mais de 2 milhões de posts com as hashtags #plantsofinstagram e #houseplants, 145 mil posts com a hashtag #plantasdecasa, 73.8 mil posts com #plantasdeinterior, entre outras. E na esteira dessa tendência, surge o conceito de Urban Jungle (floresta urbana) – o trazer a natureza para dentro de casa em maior escala.

Via LCDinteriors
Urban Jungle – Via Pinterest

Igor Josifovic e Judith de Graaff, criadores do site urbanjunglebloggers.com e donos da conta @urbanjungleblog, lideram esse movimento, com 857.000 seguidores no Instagram, tendo lançado em 2016 o livro Urban Jungle: Living and Styling with Plants, em que ressaltam os benefícios e a beleza das plantas de interior em espaços urbanos.

A atual necessidade de reconexão com a natureza, a obsessão por saúde e bem-estar explicam essa nova tendência, considerando ser hoje provado que o verde melhora a saúde mental e a qualidade do ar. Os mais céticos arriscam dizer que,  sem condições financeiras para ter filhos, a geração do milênio os substituem por plantas…

Igor e Judith ridicularizam os que pensam assim e afirmam: “É muito mais fácil para os jovens viverem com plantas de interior porque elas requerem menos do seu tempo e lhes permitem viajar e se divertir sem restrições, ao mesmo tempo em que deixam o apartamento bonito e saudável.”

As samambaias, queridíssimas nos anos 70, foram rejeitadas por algumas décadas, para ressurgirem como uma das preferidas em jardins verticais, por seu volume, caimento e delicadeza.

Em resumo, são várias as razões pelas quais as plantas entram em moda, razões essas que vão além do fator meramente estético.

É mais difícil estabelecer o porquê de certas plantas saírem de moda. Nosso palestrante identificou como um dos motivos um fato muito simples: a saturação que advém do uso exagerado de certas plantas. Me lembrei logo da Ixora, figurinha fácil em milhares de jardins… Eu adicionaria que certas plantas saem de moda devido a associações que se fazem com elas. A Espada-de-São-Jorge (Sansevieria trifasciata) foi por muito tempo vista como uma planta ‘brega’ pela sua associação com a umbanda. Hoje compõem maciços exuberantes em jardins de grandes paisagistas, além de filtrarem os gases tóxicos encontrados em ambientes internos, e, claro, protegerem contra o ‘mau-olhado’…

Via fazfacil.com.br

Em 2014, na exposição Fashion & Gardens, no Garden Museum em Londres – quando pela primeira vez se explorou a relação entre a moda feminina e paisagismo, e o fenômeno da popularidade de determinadas flores em determinados períodos – foram apresentados exemplos da mania por camélias e girassóis na Era Vitoriana e por margaridas na era Mary Quant, nos anos 60. No caso, eram as plantas a inspirar a moda, diferentemente do que ocorre hoje, quando diversos fatores tendem a tornar certas plantas mais ou menos populares. Curioso também que um dos quadros mais famosos de Van Gogh – que viveu no período vitoriano – é “Girassóis”. O que terá levado o girassol a ser um dos queridinhos daquela época?…

Girassóis, 1889. Via Van Gogh Museum
Via vogue.co.uk

Vamos falar de solos? por Fátima Orlandi Junqueira

Olá! Sou a Fátima, engenheira e paisagista, e, nesse primeiro texto, começo minha participação no blog Papo de Paisagista. Dentre meus textos, abordarei temas que considero relevantes ao nosso cotidiano profissional, unindo meu conhecimento acadêmico com aprendizados interessantes que adquiri ao longo de vivências em diversos biomas e ecossistemas que visitei ao redor do mundo. Nesse primeiro momento, começaremos com um tema mais técnico, mas fundamental para a prática da nossa profissão. Então, vamos falar de solos?

Os solos são cruciais para a vida na Terra. À medida que a sociedade se torna mais urbanizada, menor é o contato das pessoas com o solo, o que nos faz esquecer o quanto dependemos dele para nossa sobrevivência e prosperidade.

Nós, paisagistas e profissionais da área de meio ambiente, precisamos entender melhor a ciência do solo, sua dinâmica, e a forma de interação soloplanta. O solo desempenha papel fundamental nos mais diversos ecossistemas, seja no quintal da sua casa, em fazendas ou nas florestas.

O solo proporciona o suporte mecânico para as raízes se fixarem e crescerem, o qual também fornece às plantas água e nutrientes, essenciais para o desenvolvimento desses vegetais.

Mas, afinal, o que é o solo? Embora existam inúmeras definições, o solo pode ser caracterizado como a camada superficial intemperizada da crosta terrestre, sendo constituído de proporções de tipos de minerais e húmus (matéria orgânica decomposta). A partir desses componentes naturais, ele se torna um ambiente propício ao desenvolvimento da vida terrestre.

A qualidade do solo determina a natureza dos ecossistemas das plantas. Por conseguinte, as plantas se adaptam às regiões nas quais encontram características do solo e do clima, favoráveis ao próprio desenvolvimento.

Os desertos, por exemplo, são conhecidos por ter um clima extremamente hostil, caracterizado pelas elevadas temperaturas ao longo do dia e baixas temperaturas a noite, além de índices pluviais extremamente baixos durante o ano. Como conseqüência, esse solo caracteriza-se arenoso e bastante seco, reduzindo as variedades existentes nos desertos às xerófilas.

As principais características dessas plantas são: a presença de espinhos, poucas ou até mesmo a ausência de folhas pequenas, para que não ocorra a perda de água, raízes profundas, para facilitar a absorção de água de lençóis freáticos, e alta capacidade de armazenamento de água em seus caules e raízes.

Fonte: Acervo pessoal – Deserto do Atacama

As regiões equatoriais, por sua vez, apresentam elevadas temperaturas e grande umidade ao longo do ano, o que favorece o desenvolvimento de uma vegetação densa, com árvores de grande porte. Nesses solos há uma restrita e rica camada de matéria orgânica (húmus) que se renova constantemente, garantindo a sustentação e a exuberância da floresta. A flora equatorial não é homogênea apresentando tipos de formação vegetal bem distintos, por conta da característica do solo de cada região.

Fonte: Acervo pessoal – Floresta Amazônica – mata de terra firme

A floresta de terra firme não costuma ter inundações. Há presença de árvores de grande porte. O solo possui uma camada de nutrientes devido à decomposição de folhas, frutos e animais mortos.

Fonte: Acervo pessoal – Floresta Amazônica – mata de várzea.

A mata de várzea onde costuma ter inundações sazonais. Dividem-se em dois tipos, as várzeas baixa e alta. Predominam na baixa as palmeiras e as espécies vegetais que apresentam raízes aéreas como por exemplo o buriti. Na várzea alta onde o solo é menos influenciado pelas cheias e apresenta maior biomassa, encontram-se espécies arbóreas, como a copaíba.

A compreensão dos diferentes tipos de solos, bem como o conhecimento de suas características e especificidades, se mostram fundamentais para a atividade paisagística. Dúvidas, comentários ou sugestões são muito bem vindas.

Até a próxima!

Criando jardins espontâneos – por Helena Justo

Na infância, eu adorava brincar de casinha. E sempre usava as plantas para deixar os espaços mais bonitos ou até para fazer comidinhas. Nunca imaginei que um dia elas virariam alimentos de verdade. Afinal, há cerca de 40 anos, o conceito de PANCs (plantas alimentícias não convencionais) não existia e só colocávamos à mesa legumes, verduras e temperos tradicionais.

O termo foi criado apenas em 2008 pelo botânico Valdelly Kinupp para quebrar o preconceito com plantas consideradas daninhas e com outras desvalorizadas. Hoje, há uma busca constante da população por uma alimentação mais orgânica e equilibrada, por isso se fala muito sobre o uso de folhas, frutos, flores, raízes, sementes e brotos na culinária. Até mesmo nos restaurantes, os chefs têm utilizado espécies originais com alto valor nutricional.

Projeto autoral, Jardim espontâneo – ervas, pancs, frutíferas e ornamentais.

No paisagismo, o tema também anda em destaque. Muitos clientes tem pedido a introdução das PANCs nos projetos que eu, carinhosamente, costumo chamar de jardins espontâneos. Por quê? Uma das principais características dessas plantas justamente é o crescimento natural sem o uso de agrotóxicos e insumos.

Projeto autoral, Jardim espontâneo ervas e pancs.

Na verdade, desde o início da minha trajetória como paisagista faço jardins com ervas e PANCs. Mas por que eu gosto tanto delas? Olha… tenho uma boa lista de motivos. Em ambientes externos, as PANCs dão um toque de originalidade ao paisagismo. Seu uso valoriza espécies importantes na culinária e diminui impactos ao meio ambiente. E mais: é possível usar inúmeras espécies, desde palmeiras até forrageiras, e a maioria é fácil de encontrar nos supermercados ou na forma de mudas.

Agora, eu quero compartilhar com você as minhas PANCs preferidas…

Foto: Malcolm Manners

1. Capuchinha, Trapaeolum majus L.

É uma planta herbácea anual que necessita de sol pleno e tem ramos que variam de 70 a 140 cm de comprimento. Pode ser usada no jardim de forma rasteira, pendente ou como trepadeira. Suas folhas de sabor picante e suas flores podem ser consumidas. É riquíssima em vitamina C e tem propriedades antibióticas.

Fonte imagem: Google imagens

2. Costus, Costus spicatus (Jacq.) Sw.

O costus também conhecido como cana-do-brejo é uma planta herbácea perene e ereta, que pode chegar até 1,20m. Suas flores podem ser utilizadas em saladas. Suas folhas são usadas ocasionalmente para ornamentação, mas podem ser consumidas cruas em salada ou em suco. Com ação diurética e depurativa, ajuda no tratamento de problemas renais, inflamações e cistite.

Foto: Jean-Jacques Boujot

3. Dente de leão, Taraxacum officinale F.H.Wigg

O dente-de-leão, também conhecido como chicória silvestre, é uma planta herbácea perene. Necessita de sol pleno e sua altura varia de 5 a 30 centímetros. É rico em vitaminas A, B6, E, K e C e em minerais cálcio, potássio, magnésio, cobre e ferro.

Fonte imagem: Google imagens

4. Ora pro nobis – Pereskia aculeata Mill.

Também conhecida como trepadeira limão ou carne-de-pobre, pelo seu teor altíssimo de proteína, é um arbusto semilenhoso, perene,  bastante  espinhento e com ramos longos. As folhas, as flores e os frutos necessitam de sol e podem ser consumidos. No paisagismo, precisa ficar em um local sem acesso para as crianças e animais por causa dos espinhos. 

Foto: Shutterstock

5. Peixinho – Stachys byzantina K. Koch

Peixinho, também conhecido como peixinho-da-horta ou lambarizinho, é uma herbácea perene. Necessita de sol e sua altura pode chegar a 40 centímetros.  Com formato espatulado, cor verde esbranquiçada e perfume agradável, sua folha frita lembra o sabor de um peixinho de verdade. Pode ser usada também para acalmar tosses e irritações na faringe. No meio de outras vegetações, dá um charme especial ao paisagismo.

Hoje, estima-se que há uma média de 10.000 plantas com potencial comestível no Brasil. A biodiversidade do nosso país é imensa e reconhecida mundialmente. Que tal você aderir já ao consumo e utilização das PANCs, tão nutritivas e capazes de evitar agressões ao meio ambiente? Seu jardim vai ficar mais bonito, saudável e você vai contribuir para o bem-estar do Planeta.

Estou torcendo para você também se apaixonar pelas PANCs.

Até o próximo post!

Não existe monotonia do lado de cima do Equador – por Vitoria Davies

Férias na Inglaterra, e o mês escolhido não poderia ter sido melhor: maio, primavera, mês do Chelsea Flower Show, muita alegria e cor espalhadas pela ilha…

Já no primeiro dia acordei e fui direto ao Regent’s Park. Além dos canteiros com combinações divinas de plantas – verdadeiras aulas de como combinar cores, formas e texturas, adorei ver a quantidade e variedade de Heucheras por todo lado, planta que me encanta:

Heucheras, a frente
Belíssima combinação de plantas no Regent’s Park

Sobre o Chelsea Flower Show, achei que o prêmio máximo – Best in Show –  conferido ao paisagista britânico Andy Sturgeon foi merecidíssimo: foi de fato o jardim mais inovador e impactante:

Por Andy Sturgeon – Chelsea Flower Show 2019. Muros feitos de madeira carbonizada, imitando pedras.

Na categoria Planta do Ano venceu o Sedum takesimense Atlantis (‘Nonsitnal’):

Antes de viajar, pesquisei sobre jardins em geral desconhecidos ou escondidos em Londres e arredores. Descobri um jardim que não é aberto ao público, mas que abriria em certa data de maio como parte do National Garden Scheme. Trata-se do jardim da The Charterhouse (The Charterhouse, Charterhouse Square – London EC1M 6AN), antigo monastério que, a partir do século VI, se tornou um asilo de idosos carentes.

É um jardim tipicamente inglês, bem cuidadíssimo, com uma bela variedade de plantas – um verdadeiro oásis para os idosos…

Descobri também uma fazenda de produção de lavandas nos arredores de Londres, Mayfield Lavender Farm, mas infelizmente elas ainda não tinham florescido na véspera do meu retorno, assim, desisti de ir.

Uma área recentemente desenvolvida que vale a pena visitar é o Coal Drops Yard, antiga parte da estação rodoviária de Kings Cross que se tornou uma área de lazer. Gostei muito dos longos ‘canteiros’ criados usando-se cestos de material impermeável para as plantas:

Por fim, no tocante a Arquitetura, o mais interessante que vi foi esse gasômetro transformado em prédio de apartamentos de luxo no Coal Drops Yard. Os britânicos definitivamente sabem inovar…

Vamos praticar o autocuidado por meio das plantas? por Helena Justo

Hoje acordei muito feliz. Fui à varanda, reguei as plantas e contemplei meu pedacinho tão especial da natureza. E brindei comigo mesma minha estreia aqui no Papo de Paisagista. Filha de um engenheiro agrônomo e de uma designer floral, aprendi desde cedo a gostar das plantas e a respeitá-las, porque, como nós, são seres vivos. Assim, traçar meu caminho profissional ao lado delas foi uma consequência prazerosa e natural.

Há 20 anos, fiz vários cursos de Paisagismo, comecei a atuar na área e a criar projetos para proporcionar bem-estar às pessoas. Depois de um bom tempo, cursei Arquitetura, mas nunca deixei de lado a paixão pelas plantas. Para mim, mais do que deixar um ambiente bonito e aconchegante, o Paisagismo pode ter um papel essencial em relação às nossas emoções e à nossa saúde física e mental.

Agora, pára, pensa e sente! Quantas horas por dia você fica conectado no Facebook, Instagram, Linkedin, Whatsapp e em outras redes sociais? Quantos minutos você usa para  refletir sobre sua vida, sonhos e propósitos? Quantos momentos você se dedica a cuidar de si mesmo? Quantos dias por mês você sai de casa para encontrar os amigos queridos? Aposto que o tempo conectado ao computador ou ao celular é sempre o vencedor.

Não tenho nada contra a tecnologia, pelo contrário sou usuária das redes sociais. O problema é que ficar tempo demais no universo virtual tira o foco e diminui a conexão com o mundo interior. Mais do que isso: segundo uma pesquisa da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos, as redes sociais aumentam a incidência de ansiedade e depressão entre os usuários. Aquelas pessoas que checam suas redes sociais várias vezes ao dia correm um risco duas vezes maior de ficar deprimidas do que outras que não se importam com a conexão digital. 

Nessa altura, você deve estar se perguntando: mas, o que o Paisagismo tem a ver com tudo isso? Tem tudo a ver! Se você praticar a chamada jardinagem holística (cuidar de cada etapa do desenvolvimento de suas plantas como se estivesse cuidando de si mesma de forma integral) vai conseguir se reconectar rapidinho com sua própria essência e com o universo. E, acredite, o processo é muito lúdico e mais simples do que parece.

Foto 1 – Foto arquivo pessoal da cliente que cuida pessoalmente de suas ervas.

Olha só! Quando você cuida de uma planta ornamental, frutífera, orquídea ou vaso de ervas, treina também o autocuidado e o autoconhecimento. A adubação com produtos orgânicos, por exemplo, é uma forma de alimentar e questionar a qualidade daquilo que você come no dia a dia. Na hora em que você faz a poda, também está buscando uma limpeza interna e praticando o desapego. Quando percebe que uma planta não floresce porque não está bem adaptada em determinado espaço e a transfere para outro lugar mais confortável, está treinando o olhar para o outro, a empatia e a compaixão.

A jardinagem holística ainda é um bom caminho para integrar a família. Tenho uma cliente que plantou uma roseira em vaso na sua varanda, o marido e os filhos ajudaram a regar, adubar e podar as flores, e ela mesma criou um belo arranjo para colocar em seu quarto, depois que as rosas floresceram. Foi uma tarefa em conjunto que proporcionou muita alegria e prazer a todos.

Foto 2 – Foto arquivo pessoal da cliente.

Segundo estudos, a jardinagem ainda ajuda a aliviar os sintomas de estresse. Alguns pesquisadores chegam a dizer que os benefícios são até melhores que os da leitura ou prática de meditação. Várias horas dedicadas à jardinagem, também ajudam a ter uma noite boa de sono, já que a atividade cansa o corpo e relaxa a mente.

Foto 3 – Cantinho especial com ervas e afins, projeto autoral para uma mostra de pequenos espaços para estar e relaxar. Foto arquivo pessoal.

Atenção, amigos! Na minha opinião, não faltam bons motivos para você acrescentar em seu projeto um cantinho para o cliente cuidar no dia a dia. Assim, ele vai deixar um pouco de lado a vida nas telinhas, mergulhar no mundo ao vivo e em cores e seguir um caminho mais pleno e conectado consigo mesmo.

Até o próximo post !!!