Um jardim holandês no Brasil – por Dorothi Bouwman e Chris Lara

A visita a um jardim temático nos trás a oportunidade de viajar, no tempo e no espaço.

A nossa viagem hoje é pelo jardim do Museu Histórico de Castrolanda (fundado em 2016), uma réplica dos jardins da região da Holanda de onde vieram as famílias que fundaram a colônia. Um jardim que além de valores culturais, nos apresenta outras formas de viver.

A proposta deste projeto envolveu a contextualização do paisagismo com a época de uma construção rural típica do tipo “Hallehuisgroep” (residência e estábulo debaixo do mesmo telhado, sendo a residência na parte da frente da construção e o estabulo ao fundo), do leste da Holanda de onde vem os imigrantes holandeses da Colônia Castrolanda.

A responsável pelo desafio de resgatar a identidade e a história de um jardim tipicamente rural holandês é a paisagista Dorothi G Bouwman, que apesar de descendente, precisou estudar a fundo os hábitos e costumes das pessoas que viviam neste tipo de propriedade no século XIX.

A cultura do jardim rural holandês

Quando se pensa em uma propriedade rural daquela época, logo vem a mente aspectos como funcionalidade e praticidade, pois o jardim era criado para atender algumas necessidades básicas da família. Estes jardins dependiam exclusivamente da dedicação da esposa, já que o marido era o responsável pelo cuidado com os animais e as atividades agrícolas. Não sobrava muito tempo e não havia terceiros para fazer a manutenção.

Praticamente todo jardim tinha uma horta, um pomar e um poço de água. Também havia a necessidade de planejar o jardim visando evitar a entrada ou saída dos animais e criar uma barreira de proteção contra ventos fortes, para isso, eram plantadas árvores altas na lateral das propriedades.

Quanto maior o poder aquisitivo, maior a quantidade de plantas ornamentais introduzidas ao longo do tempo. A mistura de plantas também era consequência das visitas que as esposas faziam, levando sempre uma muda para presentear e trocar com a vizinha.

Entre os estilos que influenciaram os jardins holandeses da época estão o estilo clássico e o de cottage, além da influência naturalista.

O projeto do jardim holandês de Castrolanda

Com este estudo inicial gerou-se uma expectativa de releitura que deveria ser clara, isto é, fácil de interpretar e de ser apreciada pelos futuros visitantes do museu.  

E assim vieram os desafios. Como trazer todos estes elementos para o jardim de forma organizada e harmoniosa? Quais espécies incluir no projeto para atender as características do clima local, que estejam disponíveis em viveiros no Brasil, e que ao mesmo tempo tenham relação com um jardim rural holandês. Na etapa da implantação, como fazer esta mistura sem parecer uma bagunça? Quais pisos utilizar que representem o estilo e que atendam as regras de acessibilidade. Como era este poço utilizado naquela época? Para o quebra-vento, qual espécie escolher?

A solução para todas estas perguntas você poderá acompanhar a seguir.

Planta baixa do projeto

A planta baixa mostra os desenhos orgânicos nos canteiros frontais e laterais, como no estilo cottage, e o estilo clássico com desenhos geométricos com um eixo que engloba a horta, o pomar, o poço e termina em um pergolado.

Fotos atuais do projeto

Vista dos canteiros orgânicos com a mistura de espécies. Foram utilizadas espécies com diferentes épocas de floração como: Rododendro, Hortensia, Budleia; Arbustos com folhas interessantes como o Mini Pitosporo, Nandina Anã, Fotinea; alguns tipos de Capins e também folhagens para forração como o Liriope, Flores anuais como a Dahlia , Salvia Farinacea , entre outros.
Pátio central com topiaria de buxinho e capim do texas observando o eixo até o pergolado ao fundo.  No piso desenhos com  paver antique , paver clay também e piso drenante , que neste caso foi escolhido para remeter a uma cobertura de pedriscos.
A horta em canteiros elevados.
Poço ao centro para retirada da água (típico da época). A alavanca era uma forma de facilitar o trabalho para a mulher.

Estas imagens mostram o Álamo piramidal como quebra vento no limite do terreno e a vista do pergolado.

Sobre a paisagista

Dorothi G Bouwman é engenheira agrônoma e paisagista, descendente de Holandeses, da colônia de Carambeí. Seu primeiro contato com o paisagismo foi em 2001, quando foi convidada para implantar um projeto de outra paisagista. Já formada em agronomia, ela experimentou novas formas de aplicar seu conhecimento e se apaixonou. Desde então seguiu se profissionalizando na área e se dedicando a novos projetos envolvendo o paisagismo.

Em seu trabalho, ela preza muito por trazer a cultura e os valores do cliente para o jardim, seja uma família ou uma empresa. “Dessa forma colocamos a identidade do cliente no jardim, e as pessoas quando visitam percebem que este local é diferente.”

Esta coluna foi uma parceria da Dorothi com a Chris Lara, para o Papo de Paisagista. Uma forma de compartilhar novas histórias e apresentar projetos e jardins inspiradores.

Imagens: Geraldine Bouwman