Paisagistas queridos e queridas, que prazer estar aqui mais uma vez me encontrando com vocês através desta coluna. Fiquei muito feliz com os comentários no último texto que publiquei por aqui, é sempre muito bom poder interagir com vocês! E por falar em interagir, vocês estão sabendo que irei participar do próximo Papo Online? Fiquei super honrada com o convite, estou bem animada de poder ter esse aprofundamento no tema do qual trato aqui, A Nova Cidade, podendo também ouví-los e trocar com vocês. O tema do Papo será “Cinco conceitos fundamentais para os paisagistas da Nova Cidade”. E, para nos aquecermos, quero trazer aqui para vocês em primeira mão uma visão de um desses cinco conceitos. Não estou exagerando no título: ele vai te fazer um ou uma paisagista melhor!

Para falar sobre isso, quero te pedir para fazer um exercício bem rápido. Pare por um segundo e, assim que terminar de ler essa frase, feche os seus olhos e imagine um lugar que te traga um profundo bem-estar. Sério, feche os olhos e procure imaginar esse lugar.

(tempinho para você imaginar)

Há uma grande possibilidade de você ter imaginado uma paisagem na natureza. Uma cachoeira, uma montanha, um lago, um dia ensolarado na beira do mar, um parque, um cantinho florido na sua casa… certo? Me conte nos comentários! Agora, se aprofunde um pouco nesta sensação de bem-estar e nas imagens que você relaciona a ela. E perceba, também, como dificilmente virá a imagem de uma paisagem urbana na sua mente. Afinal, cidade e bem-estar são duas ideias que combinam muito, não é mesmo?

Pois é exatamente esse o ponto sobre o qual eu quero tratar com você. Bem aí está algo que pode ser bastante transformador. Vou te explicar: é como se existissem “duas cidades”. Uma é esta onde você mora, por onde se desloca para visitar seus amigos ou levar seus filhos até a escola, ou para frequentar suas lojas favoritas, passear pelo parque, relembrar sua infância em uma praça ou sorveteria… a cidade “concreta”, digamos assim. A outra é a cidade que começa a se desenhar em nossa cabeça toda vez que dizemos essa palavra. Repare que quando você lê “cidade”, algumas imagens já começam a pipocar na sua cabeça. Prédios, carros, semáforos, placas, trânsito e assim por diante. E o curioso é que, em qualquer lugar do mundo, a imaginação sobre a palavra cidade busca símbolos muito parecidos com esse. Podemos chamar isso de cidade “sutil”, é algo que existe no campo das ideias e do inconsciente coletivo.

E por que é tão poderoso compreender que existe uma cidade concreta e uma cidade sutil? Porque uma é consequência da outra. E, um dos caminhos para transformar a cidade concreta, é começar a mexer na nossa percepção da cidade sutil.

Pense bem: se a cidade é um lugar desconectado do bem-estar na nossa forma de percebê-la e imaginá-la, dificilmente conseguiremos criar uma realidade diferente disso. Tomemos como exemplo o Setor Sul de Goiânia, um bairro planejado para ser um centro de bem-estar e convivência para todos que morassem ali. O planejamento do Setor Sul era assim: os loteamentos das casas teriam duas entradas. Uma bem pequenininha, apenas para a garagem dos carros que chegassem da rua. E outra grandona, que seria a frente da casa e daria para um enorme jardim coletivo. Esse era o plano para a cidade concreta. Mas quando os lotes foram vendidos e as cidades começaram a ser construídas, a cidade sutil entrou em ação. No imaginário de todos, a garagem por onde entra o carro é a frente da casa. E, assim, aquele grande jardim coletivo acabou se tornando os fundos das casas, muitas vezes com amontoados de sacos de lixo e grama alta sem manutenção. Isso porque as pessoas não tinham aquele repertório, porque a possibilidade de morar daquele outro jeito não estava registrada na cidade sutil.

Ilustração do Setor Sul de Goiânia

Percebe como isso é profundo? E é justamente aí que entra a profissão do paisagismo. Porque este é o ofício que pode mais rapidamente criar o link entre o bem-estar, a cidade concreta e a cidade sutil. Ter mais ambientes executados por paisagistas, estejam eles dentro de casas ou em espaços públicos, é colocar na rotina de mais gente o contato com vários daqueles elementos que nos remetem ao bem-estar: a beleza, as plantas, as cores, a terra, os aromas, são estímulos multi-sensoriais que podem fisicamente começar a mudar o mecanismo de percepção da realidade dentro do cérebro das pessoas, trazendo para a cidade concreta e para a cidade sutil um registro novo.

Então, toda vez que você fizer um projeto, lembre-se de que, no mais profundo, você está sendo um elo de transformação do que experienciamos e percebemos como cidade. Está contribuindo um pouquinho mais a diminuir sensações de ansiedade, depressão e desencaixe, e ao mesmo tempo, aumentar o bem-estar, a conexão e o contentamento. Isso, em um contexto onde a maioria das pessoas do planeta vive em cidades, definitivamente não é qualquer coisa. Coloca na sua profissão uma possibilidade de reinventar a nossa forma de existir neste planeta.

Então, receba a minha gratidão por você estar aí me lendo e, espero, topando o desafio de se aprimorar ainda mais nisto que acredito que já ame fazer: embelezar cada cantinho onde seu trabalho possa chegar.

Ah, e espero você lá no Papo para falarmos dos outros conceitos!! Até logo!


NATÁLIA FONTES GARCIA é jornalista e escritora. Investigou, em mais de 100 destinos pelo mundo, novas e melhores formas de viver em cidades. É criadora da consultoria de inovação urbana para pessoas e organizações A Nova Cidade. E é também autora do livro Sete Dias No Butão – O Que Aprendi Sobre Felicidade. 

@nataliagarcia.lampejo

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0 comentários sobre “Saber isso vai te fazer um paisagista melhor – por Natália Fontes Garcia

  • Luara Richter

    Que delícia de artigo! parabéns Natália por conseguir transcrever em palavras muitas das sensações e transformações que o paisagismo proporciona e como ele pode agregar em sua essência ♥

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