A evolução dos bancos de jardim – por Vitoria Davies

Ao longo dos séculos, o mobiliário para jardim foi passando por mudanças no design e nos materiais usados na sua construção.

Os antigos egípcios usavam recursos naturais na produção de mobiliário, como grama de pântano e cana, que crescem nas margens do Rio Nilo. Embora feitos para uso em interiores, os egípcios os usavam também nos jardins.

Os antigos gregos foram os primeiros a produzir mobiliário feito exclusivamente para jardim, mais tarde copiado pelos romanos. Em geral os assentos eram feitos de pedra, bastante pesados e desconfortáveis. Algo como o que a imagem abaixo mostra:

Foto: Alamy

Os exemplos mais antigos de mobiliário para jardim foram descobertos por arqueologistas ao desenterrarem Pompeia, a antiga cidade romana, e se depararem com esses itens nos jardins das antigas casas da cidade.

Na Idade Média, os jardins eram mais funcionais do que decorativos; não era um lugar para se relaxar, mas para cultivar vegetais, frutas, ervas medicinais. Os assentos eram bancos de relva ou jardineiras arrematadas com relva, como se vê em pinturas de jardins do início do século 15.

Bancos de relva em pintura medieval. Via Google
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No Renascimento, o jardim voltou a ser um ambiente onde se relaxar, tomar chá, tocar música, fazer jogos. Os assentos usados nos interiores eram levados para o jardim. Sendo pesados demais para esse leva-e-traz do jardim, não demorou para que a primeira cadeira de jardim fosse criada – a cadeira Windsor, de origem inglesa. Datada do inicio do século 18, logo se tornou popular por ser muito leve. Embora originalmente criada como cadeira de jardim, mais tarde veio a ser usada também em interiores, como cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo. cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo.

Cadeira Windsor, primeira cadeira criada especificamente para ser usada em jardins, no início do século 18. Via Google
Cadeira Windsor em pintura da época. Via Google

No final do século 18 e início do século 19, já existiam jardins públicos e parques em todas as cidades. Havia grande demanda de assentos para essas áreas externas, o que resultou na criação do banco de praça.

Banco de praça icônico projetado pelo arquiteto britânico Edwin Lutyens (1869-1944). Via Google

Nesse período, também a indústria de ferro fundido começou a produzir bancos, cadeiras e mesas para a área externa.

Banco de ferro fundido. Via Google

Em meados do século 20, os jardins residenciais voltaram a ter destaque, com as pessoas se reunindo mais nas áreas externas, o que fez com que o mobiliário de jardim se tornasse uma necessidade. Novos materiais começaram a ser utilizados, em especial o plástico, e cadeiras e mesas de plástico se tornaram itens presentes em quase todos os jardins.

Hoje são produzidos todo tipo de bancos, assentos enfim, para a área externa, em diversos materiais, cores, e com designs bastante originais, ou mesmo esculturais, como se vê nos exemplos abaixo:

Banco Romeu e Julieta, criado por Stijn Goethals, Koen Baeyens e Basile Graux para a empresa Extremis. Os próprios vasos servem como pés do banco. Via Google
Banco em formato orgânico, de aço galvanizado com pintura eletrostática, criado pelo paisagista Amir Schlezinger. Via Google
Bancos como um prolongamento do piso, emergindo esculturalmente, no High Line em Nova York. Via Google
Variação sobre o mesmo tema: os bancos são uma continuação dos caminhos. Via Pinterest
Banco em forma de escultura, ou escultura em forma de banco? Via Pinterest
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Please be seated, instalação criada pelo designer britânico Paul Cocksedge para o London Design Festival 2019. Via Google

Hoje realmente não há limites para a criatividade quando se trata de bancos para as áreas externas…

De démodé a “queridinhas da vez” – por Vitoria Davies

Tenho visto muitos stories e postagens no Instagram sobre a jibóia.  Assim como a samambaia, as duas são plantas que há algumas décadas se tornaram démodé, antiquadas, para ressurgirem como as plantas da vez. Primeiro foi a samambaia, planta exuberantemente cheia e pendente, perfeita para os jardins verticais – e foram eles que a resgataram do esquecimento quando viraram moda. Hoje são estrelas não só em jardins verticais, mas também pendendo do teto de salas, brotando de gavetas de cômodas, preenchendo vãos embaixo de aparadores, enfeitando estantes. A recente moda do urban jungle reforçou sua popularidade.

Existem cerca de 12 mil espécies de samambaias no mundo, sem esquecer da avenca, do asplênio e do chifre-de-veado, também samambaias. É uma das plantas mais antigas do planeta.

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Fonte: The Guardian

A jibóia, por suas folhas em forma de coração quando a planta é jovem e seu caimento gracioso, parece que também veio para ficar – figura em jardins verticais, adorna estantes em interiores, além de usada, em jardins, como trepadeira apoiada em suportes ou como cobertura de solo em locais mais sombreados.

Originária das Ilhas Salomão, a jibóia que vemos mais comumente em áreas externas e em interiores é uma das oito espécies do gênero Epipremnum. Trata-se da Epipremnum pinnatum.

Epipremnum pinnatum – Fonte: Pinterest

Outra espécie muito atraente desse gênero, que ilumina qualquer composição, é a Epipremnum aureum, com folhas amarelo-limão.

Epipremnum aureum – Fonte: Google

Mas o que proponho é que nós, paisagistas, contribuamos para tornar outras plantas também “queridinhas da vez”, solicitando-as a produtores para uso em nossos projetos. Se começarem a ser muito procuradas pelos profissionais da área, os produtores serão incentivados a produzirem-nas. Há no mercado alguns produtores apresentando novidades para diversificar a flora de nossos jardins e interiores, entre eles, @plantacaolocal.guaratiba (RJ) e @j.pompeo (SP); a maioria, porém, tende a produzir o que é mais conhecido e mais garantido de ser vendido. Algumas não são exatamente novidades, mas às vezes são desprezadas por serem consideradas “mato”, como a linda nativa flor-de-guarujá (Turnera ulmifolia), que, além de tudo, é uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) – suas flores tornam saladas e saladas de frutas mais saborosas, e com as folhas, secas e trituradas, pode-se fazer chás ou condimentar comidas.

Flor-de-guarujá (Turnera subulata). Fonte: Google

Não é o caso da minipitanga (Eugenia mattosi), mas que também poderia entrar na categoria “queridinha da vez”, substituindo a já batida ixora, e estar mais presente no paisagismo, até mesmo em jardins verticais, como apontou a professora e paisagista Flávia Nunes em palestra recente sobre plantas nativas.

Termino com uma planta espetacular, tão nova no mercado, que ainda não tem nome popular. Produzida por produtor do grupo Plantação Local, foi estreada na Casa Cor Rio 2019 no jardim do paisagista Sandro Ward e já começa a aparecer em outros jardins, e até em paredes verdes: o Philodendron subhastatum. O paisagista carioca Rafael Carvalho, sócio da Vertic Jungle (@vertic_jungle), acaba de implantar em área externa uma belíssima parede verde que projetou, na qual utilizou esse filodendro. Versátil, o P. subhastatum ficará também magnífico em maciços e interiores.

Philodendron subhastatum. Foto de Claudia Leandro da Silva, idealizadora e representante comercial do grupo Plantação Local
Jardim vertical projetado e implantado pelo paisagista Rafael Carvalho. Foto de Rafael Carvalho

Difícil imaginar que essa maravilha de planta possa um dia se tornar démodé. Certamente virá a compor o grupo das “queridinhas da vez”, ou “queridinhas para sempre”… Estimulemos o mercado a vender essa e tantas outras que, apesar de merecerem destaque, são deixadas de lado em prol, em geral, das que o consumidor já conhece mais e garantem vendas. O paisagismo atual precisa de maior diversificação, e estamos no país certo para isso…

5 Jardins Espetaculares – por Vitoria Davies

Sabe aqueles jardins que você vê na Internet ou visita e que você nunca mais esquece? Se alguém te pede para citar jardins que te impressionaram, são os que vêm à mente?

Vou me deter em apenas cinco dos que constam na minha lista de “especiais”, respeitando o espaço deste blog. Obviamente a lista é bem mais ampla e inclui jardins de todos os estilos…

1.HILGARD GARDEN– Mary Barensfeld (https://barensfeld.com)

A arquiteta paisagista americana Mary Barensfeld, extensamente premiada por seus trabalhos em arquitetura, arquitetura paisagísta e urbanismo, atua na Califórnia e na Pensilvânia.

No trecho do terreno em aclive acentuado, Barensfeld evitou ocupar espaço com o convencional uso de escadas criando muros de concreto angulares que sustentam os vários níveis, com um deck no topo e uma rampa sinuosa que dá acesso a cada um deles.

Foto: Joe Fletcher Photography
A divisória em aço corten marca o limite do terreno e serve ao mesmo tempo como jardineira para bambus.
Foto: Joe Fletcher Photography
Combinação perfeita de materiais: madeira, cimento e aço corten
Foto: Joe Fletcher Photography
O deck no patamar mais alto permite reclusão e tranquilidade.
Foto: Joe Fletcher Photography
Foto: Joe Fletcher Photography
A iluminação destaca o zigue-zague na estrutura dos vários níveis.
Foto: Joe Fletcher Photography

2. BROUGHTON GRANGE – Tom Stuart-Smith (1960 – ) (http://www.tomstuartsmith.co.uk)

O renomado paisagista britânico Tom Stuart-Smith participou de vários Chelsea Flower Shows; em oito deles foi premiado com medalha de ouro e, em três deles, venceu na categoria “Best in Show”.

O parterre criado por ele em Broughton Grange com formas orgânicas é deslumbrante, em contraste com os parterres tradicionais em jardins formais. Quando os canteiros delimitados pelas cercas-vivas baixas se enchem de tulipas, o resultado é realmente sensacional. Na realidade, são como vários jardins em um, com diferentes espécies usadas dependendo da estação. E mesmo no inverno, com os canteiros nus, as formas orgânicas cobertas de neve sobressaem espetacularmente.

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Com os canteiros nus, as formas orgânicas cobertas de neve sobressaem espetacularmente. Via Pinterest.

3.  CELLS OF LIFE – Charles Jencks (1939-2019) (https://www.charlesjencks.com)

Charles Jencks foi um renomado teórico cultural, historiador da arquitetura e paisagista. Nascido nos Estados Unidos, mais tarde estabeleceu-se no Reino Unido e se tornou um influente arquiteto paisagista na Grã-Bretanha. Inspirava-se na genética, nos buracos negros, na teoria do caos e em ondas.

Cells of Life (Células da Vida), em Jupiter Artland, nos arredores de Edimburgo, é sua interpretação paisagística do processo de mitose, em que uma célula se divide em duas outras células. Os oito relevos, com um caminho ligando-os, cercam quatro lagos e celebram a célula como a base da vida.  

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4. HOFU CREMATORIUM – Shunmyo Masuno (1953 – )

O japonês Shunmyo Masuno é o mais importante paisagista Zen do mundo, além de monge Zen, professor na Universidade Tama Art e fundador da empresa Japan Landscape Consultants Ltd., responsável por numerosos projetos no seu país e no exterior.

Segundo Masuno, “o jardim é um lugar especial no qual a mente habita”; os jardins Zen devem recriar um “cenário natural”, uma versão em miniatura do mundo, e acalmar a mente e a alma. No jardim criado para o crematório na cidade de Hofu, Japão – premiado pelo A’ Design Award em 2016 na categoria Planejamento Paisagístico e Paisagismo – o trecho ao fundo representa o além, e o arranjo de pedras, suas montanhas distantes. A área verde, orgânica na frente representa esta vida. A areia branca no trecho central simboliza a divisão entre esta vida e o além.

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Fonte: adesignaward.com
Fonte: adesignaward.com

5. GM GARDEN – Alex Hanazaki (https://www.hanazaki.com.br)

Foi difícil escolher apenas um jardim espetacular daquele que considero o maior paisagista brasileiro da atualidade. Hanazaki é realmente genial, no verdadeiro sentido da palavra. O GM Garden, que o paisagista diz ter se resumido a “grama e enxada”, atesta sua genialidade. Foi um projeto desafiante para o paisagista – um jardim residencial de quase 9.000 m2, com as seguintes exigências do cliente: a) que fosse de baixa manutenção, e b) ele não queria gastar dinheiro… Tendo que fazer o paisagismo de uma grande área e com baixo orçamento, Hanazaki resolveu “brincar de cavar a terra” e criar vários patamares, limitando-se a usar grama e capins-do-Texas, ambos de baixo custo.

Ele afirma que não sabe por que fez aquele buraco, mas que acabou sendo um elemento que preencheu aquele espaço e proporcionou uma vista, basicamente usando grama e enxada… Ironicamente, apesar de ter sido o jardim com o menor orçamento que já fez, é o mais reconhecido mundialmente: ganhou todos os prêmios no segmento residencial, nas Associações mais importantes do mundo, e apareceu em mais de 80 publicações, entre nacionais e internacionais.

Limitado pelo orçamento, Hanazaki utilizou apenas grama e enxada para criar um design espetacular: uma grande depressão ligada ao resto por uma ponte e que, além de preencher o espaço, proporcionou uma belíssima vista.
Foto: Beto Riginik
Foto: Beto Riginik
Vista da piscina.
Foto: Beto Riginik
Foto: Beto Riginik

Hanazaki diz que “Sempre o meu maior desafio quando desenvolvo um produto é sair do óbvio”. Esse é um dos seus muitos jardins que são exemplos máximos disso…

Dicas para combinar plantas – por Vitoria Davies

É desconhecimento de muitos que o paisagismo envolve muito mais do que a seleção de plantas. Na verdade, ao se projetar um jardim, a escolha das plantas acontece no final de um planejamento que abrange primeiramente o planejamento do espaço – onde inserir caminhos, que tipo de piso usar, qual o melhor local para a churrasqueira, entre outras coisas. Isso se aplica também a coberturas, jardins de inverno etc. Como paisagista, adoro o desafio de todas as etapas desse processo, mas sempre senti atração especial pelo impacto criado com o contraste de cores, formas, texturas e alturas em um jardim, canteiro, parede verde ou vaso e pela técnica de combinar plantas de forma a criar esse impacto. E é sobre isso a coluna de hoje.

O britânico Alan Titchmarsh, autor de mais de 30 livros sobre jardinagem, e alguns outros profissionais tendem a achar que a criação de belas combinações de plantas resulta de um misto de intuição e de tentativa e erro. Tenho uma visão bem menos empírica a respeito, porque na verdade há um número de fatores que garantem belas composições. (Obviamente a escolha das plantas a serem combinadas tem que levar em conta as condições que elas requerem – por exemplo, se uma delas requer pouca água, não será possível combiná-la com outra que exija regas frequentes…)

Os fatores que garantem bons resultados seriam:

1.Contraste entre cores

Foto de Christina Salwitz

O vermelho e o verde são cores complementares, isto é, cores que estão opostas umas às outras no círculo cromático. Ficam mais vibrantes, intensas, quando combinadas, e esse contraste entre elas garante um visual impactante, como na composição acima. O mesmo se aplica às combinações de amarelo e roxo, azul e laranja.

Fonte: petalasnaturais.com.br

O contraste é mais sutil quando se combinam plantas ou flores de cores análogas, isto é, cores que aparecem uma ao lado da outra no círculo cromático, como vermelho e laranja; laranja e amarelo; amarelo e verde; verde e azul; azul e violeta; violeta e vermelho, ou em grupos com mais de duas cores análogas, como verde, amarelo e laranja; amarelo, azul e violeta etc. Embora o contraste seja menor, a combinação fica elegante:

Projeto de Vitoria Davies Paisagismo

As cores frias, como o azul, violeta, branco, amarelo claro e tons de verde passam uma sensação de calma e maior distanciamento, enquanto a combinação de plantas com cores quentes, como o laranja, amarelo e vermelho, é mais forte, se destaca mais.

Projeto de Cristiana Ruspa. Via Google

As plantas com tom prateado/azul-metálico funcionam como neutras e dão um toque especial junto a qualquer outra planta, ou conjunto de plantas, de cor diferente.

Via Google

A combinação de plantas com diferentes tons de uma única cor confere certa dramaticidade à composição:

Foto de Vitoria Davies
Fonte: Hayefield.com

Uma boa fonte de inspiração para combinar plantas no que diz respeito às cores são os cartões postais com pinturas de grandes pintores. Os artistas plásticos, mais do que ninguém, são craques em combinar cores…

2. Formato das folhas

Folhas com formatos diferentes ajudam a criar uma camada extra de interesse visual, fazendo com que o jardim, parede verde etc. tenham maior diversidade e, assim, fiquem menos monótonos. Por exemplo, espécies com folhas pontiagudas contrastando com plantas de folhagem arredondada:

Foto: Christina Salwitz

Quando se combina plantas com texturas diferentes, o efeito é similar.

3. Textura

Texturas contrastantes também sempre garantem bons resultados. A parede verde abaixo é um ótimo exemplo disso, onde o contraste marcante é entre o filodendro, com suas folhas lisas, e o aspargo, com sua textura crespa, embora a textura das outras plantas também contribuam para a beleza desta composição.

Via Google

Um outro bom exemplo do efeito do contraste de texturas:

Via Google

4. Estampas das folhas

Uma outra maneira de criar belas composições é contrastando as estampas das folhas, como no caso da combinação da alocásia amazônica com a begônia abaixo:

Foto de Christina Salwitz

5. Altura das plantas

A variação na altura das plantas também produz um visual mais interessante, com as diferentes camadas tornando a composição mais cheia e exuberante. Geralmente isso significa plantar as espécies menos altas na frente e as mais altas, atrás.

Foto de Vitoria Davies

Por uma questão “didática”, listei separadamente os tipos de contrastes que geralmente garantem composições impactantes. Mas, como se vê em várias das imagens mostradas, cada composição pode incluir mais de um tipo de contraste – cor e formato; cor, formato e textura; e assim por diante.  

Concluo a coluna com foto de uma pequena composição que fiz em uma cobertura, num local onde anteriormente, segundo a cliente, nada dava certo. O Alan Titchmarsh e outros diriam talvez que a minha “intuição” funcionou. Penso diferente: não tinha como não dar certo uma composição com esse infalível contraste de cores, formatos, texturas e alturas…

Projeto Vitoria Davies Paisagismo

Xeropaisagismo e os jardins de Steve Martino – por Vitoria Davies

Na esteira da preocupação mundial com o progressivo esgotamento dos recursos hídricos do planeta, surge a moda do xeropaisagismo (grego xeros ‘seco’), isto é, a predominância de xerófitas no paisagismo, plantas que requerem pouca água, em geral por serem dotadas de caules e folhas carnudas para armazenar água, às vezes cobertas com uma camada de cera para diminuir a evaporação. São plantas que normalmente habitam áreas secas, como desertos, semi-áridos, caatingas e cerrados. O xeropaisagismo se tornou forte tendência em anos recentes e se mantém como uma das principais tendências do paisagismo para 2020, como reflexo da necessidade de se preservar nossos recursos hídricos e o meio ambiente. 

Estudos divulgados pela ONU em 2000 mostram que, em 2025, 45% da população mundial ficarão sem água potável. O desperdício de água e o elevado índice de natalidade dos países são os principais motivos dessa grave situação. Embora três quartas partes da superfície da Terra sejam compostas de água, a maior parte não está disponível para consumo humano, pois 97% são água salgada, encontrada nos oceanos e mares, e 2% formam geleiras inacessíveis. Apenas 1% de toda a água é doce e pode ser utilizada para consumo do homem e animais. Se mantivermos nosso padrão de consumo e de devastação do meio ambiente, o quadro irá se agravar mais ainda, e muito rapidamente. Daí a atual importância do xeropaisagismo.

Quando se pensa em espécies xerófitas, vêm logo à mente os cactos, as suculentas, a pata-de-elefante (Beaucarnea recurvata), o avelós (Euphorbia tirucalli), o dragoeiro (Dracaena draco), o dasilírio (Dasylirion acrotrichum) etc., mas na realidade há várias outras espécies, muito comuns e não típicas de áreas secas, que são também tolerantes à falta de água: a primavera (Bougainvillea), a lantana (Lantana camara), a grama azul (Festuca glauca), a palmeira-leque (Trachycarpus fortunei), a nandina (Nandina domestica), a ipomeia (Ipomoea purpurea), as árvores pata-de-vaca (Bauhinia variegata) e mulungu (Erythrina velutina), entre outras.

Dragoeiro (Dracaena draco). Via plantasflores.net
Dasilírio (Dasylirion acrotrichum). Foto: Vitoria Davies
Grama azul (Festuca glauca). Via Pinterest
Ipomeia (Ipomoea purpurea). Via Google
Pata-de-vaca (Bauhinia variegata). Via Google

Uma prática fundamental no xeropaisagismo é a redução de gramados, grandes vilões no que diz respeito ao uso excessivo de água. A irrigação corresponde a 73% do consumo de água do planeta, principalmente a praticada pelo setor agrícola, e o objetivo é que o paisagismo também contribua para a sua economia. 

Outra prática é o uso de plantas nativas, que, por serem adaptadas ao clima local, requerem menos regas. 

Um dos grandes expoentes do xeropaisagismo é o premiado arquiteto-paisagista americano Steve Martino (stevemartino.net). Originário do Arizona, Martino concentra seu trabalho no Deserto de Sonora. Para ele, o que define um bom projeto de paisagismo é especialmente o quão benéfico ele é para o meio ambiente, e não apenas o quão belo é e o quanto atende às necessidades do cliente. Ele usa apenas plantas nativas em seus projetos, no caso, plantas desérticas. Seus jardins são exemplos belíssimos de xeropaisagismo, aliado a uma arquitetura também excepcional, com influência do arquiteto-paisagista mexicano Luis Barragán (1902-1988) no uso de cores. 

Então, deliciem-se com alguns exemplos do trabalho deste xeropaisagista por excelência…

Via Pinterest
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Tendências do paisagismo para 2020 – por Vitoria Davies

Quando pensei em escrever sobre este tema, me veio imediatamente o desejo de entender como de fato surgem as tendências… E lá fui eu fazer uma das coisas que mais gosto de fazer – além de paisagismo, é claro: pesquisar origens, causas, evolução de movimentos vários. 

A cultura humana se desenvolve através de um ciclo constante de inovação e cópia. A famosa frase atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier, “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, foi ganhando novas interpretações, especialmente nestes tempos de maior acesso a informação: “Na Natureza nada se cria, tudo se copia”, ou como afirmou o escritor e diretor Kirby Ferguson em seu documentário sobre o tema: “Everything is a Remix” (Tudo é um remix), defendendo que a seleção e combinação de referências são a origem das grandes inovações e que mesmo os gênios às vezes se apropriam de ideias às quais sua genialidade confere uma nova dimensão.

De qualquer forma, tendemos a imaginar que alguém muito criativo pensa em algo inovador que cai no gosto de um grupo e que, a partir daí, isso vai se espalhando por outros grupos, até virar uma “tendência”. O processo não é tão simples assim. Em primeiro lugar, mesmo as pessoas muito criativas não estão imunes à influência dos contextos social, econômico, político e tecnológico, que engendram novas formas de comportamento. Além disso, hoje mais do que nunca as previsões para o mercado, indústrias, sociedade são feitas com base em análises de tendências quase que científicas; muitos fabricantes recorrem a empresas de futurologia para garantirem que seus produtos reflitam as tendências previstas nessas pesquisas e, assim, assegurarem boas vendas e bons lucros.

No mundo globalizado em que vivemos, hoje as tendências tendem a ser globais. E não poderia ser diferente com o paisagismo. 

As tendências previstas para o paisagismo em 2020 refletem os problemas e limitações que afetam cada vez mais o mundo em que vivemos, e constituem maneiras de tentar reverter o tanto quanto possível esse estado de coisas. Como não se trata de problemas anuais, várias dessas tendências parecerão as mesmas de anos recentes – os problemas subsistem, portanto o foco continua neles. A ênfase está na valorização e proteção da natureza, dada a atual precariedade do mundo natural, e no recurso ao verde como forma de promover melhor qualidade de vida num mundo em que a urbanização é crescente. Hoje, mais de 50% da população mundial habitam em cidades, e a projeção é de que até 2050 esse número chegue a 70%. 

Para produzir a lista das principais tendências, me baseei no relatório do Garden Media Group (Seeing 20/20), organização que há 20 anos prevê tendências para o paisagismo e a indústria da jardinagem em nível mundial; em feiras no Brasil e no exterior – especialmente a Spoga+Gafa, na Alemanha, considerada a maior do setor no mundo; e em trocas com paisagistas brasileiros. São elas:

1.Prédios verdes/ Sustentabilidade – com pouco impacto ambiental, visando também o combate a poluição e melhora efetiva no bem-estar dos moradores:

Via Google Imagens

2. Aumento de áreas verdes urbanas, para se escapar da agitação da cidade.

3. Ambientes mais verdes nas empresas.

4. O jardim como uma extensão da sala de estar:

Via Google Imagens

5. Cozinhas mais completas no jardim:

Via Google Imagens

6. Urban Jungle – Cultivo de muitas plantas dentro de casa. Uso de plantas de interior altas:

Via Google Imagens

7. Xeropaisagismo – Cultivo de espécies xerófitas, que exigem pouca água e têm alta resistência a doenças, ventos fortes, raios solares intensos, ambientes hostis: cactos, suculentas, pata-de-elefante, aloé, agave, pata-de-vaca, entre outras. 

Projeto de Vitoria Davies Paisagismo

8. Uso de plantas que atraem insetos.

9. Aumento do cultivo de PANCS (Plantas Comestíveis Não Convencionais) – Além de serem espaços onde relaxar, jardins, varandas, terraços passam a ter também um outro propósito, mesmo no paisagismo comercial.

10. Aumento de uso de nativas.

11. Jardinagem orgânica / compostagem.

12. Uso de materiais naturais – madeira natural, de fontes certificadas; vasos de material orgânico etc.

13. Uso de produtos e materiais renováveis, reciclados, reusados – pisos, móveis feitos de plástico reciclado etc.

14. Móveis e plantas pendentes.

Projeto de Catê Poli Paisagismo. Fotos de Evelyn Múller.
Via Google Imagens

15. Cores – 50 tons de mar…

Há mais de duas décadas, a Pantone, marca famosa que dita as tendências no mundo das cores, lança todos os anos um guia de cores que serão destaques no ano seguinte e que em geral simbolizam a era ou o momento em que estamos vivendo. A vice-presidente do Pantone Color Institute, Laurie Pressman, deixou escapar recentemente em uma feira, antes do anúncio oficial das cores para 2020, que a inspiração será o mar: tons de azul e verde. 

Via Google Imagens

Essa tendência já aparece em lançamentos de fabricantes de tinta brasileiros. A Suvinil, por exemplo, acaba de lançar a sua cor do ano para 2020: Mantra, que se dilui em outros dois subtons: Horizonte e Contemplação.

Verde Mantra, da Suvinil. Via Casa Abril

Enfim, essas são as principais tendências para o paisagismo 2020 nesta nossa Aldeia Global…


A estética de pisos – por Vitoria Davies

O piso é um dos mais importantes elementos construtivos de um jardim, e um dos que mais me fascinam no paisagismo. Acho a combinação acertada de materiais e a criação de desenhos incomuns uma arte, como a pintura, a escultura… Assim como nas línguas, onde, a partir de um número finito de elementos (as palavras), pode ser construído um número infinito de frases, o mesmo se aplica à elaboração de pisos: são possíveis variações infinitas a partir de um número finito, embora vasto, de materiais: pedra, madeira, tijolo, seixo, pedrisco, grama, cerâmica, azulejo, mármore, placas cimentícias, porcelanato, ardósia, entre outros. Com eles, ou pela combinação deles, pode-se criar uma infinidade de “linguagens” – mais padrão, mais rústica, mais rebuscada etc., ou “linguagens” que se destacam pelo inusitado de suas formas e/ou de suas combinações.
Obviamente é importante aliar a estética à segurança em áreas molhadas, escolher revestimento apropriado para onde o tráfego será mais pesado, levar em conta o período arquitetônico da casa ou prédio ao escolher o piso etc., mas minha intenção aqui é focar somente na estética de pisos, exemplificar a multitude de possibilidades, apresentar criações bastante originais, reservando questões mais técnicas para outro momento.
O tipo mais comum de piso seria aquele em geral composto de um único material, do mesmo formato, tamanho e cor, e com paginação padrão: por amarração, alinhada, diagonal, dama, espinha de peixe, escama de peixe.

Padrão por amarração – Via Pinterest

A mistura de dois ou mais materiais permite a criação de pisos mais interessantes. Tende a ser consenso que se deve usar no máximo três tipos de material – ou quatro, em áreas mais extensas – para evitar uma certa poluição visual.  
A paginação abaixo, combinando madeira de demolição com seixos, deu um aspecto rústico e aconchegante a este piso:

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Por outro lado, mesmo com um único material e a usual forração de pedriscos, pode-se inovar usando-o em formatos ou tamanhos diferentes:

Via Pinterest
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O uso de um mesmo material em tonalidades diferentes, com formas diferentes ou não, faz com que o piso se destaque:

Piso criado por Burle Marx para a mansão da família Moreira Salles. Foto: Acervo pessoal
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O muito comum piso com pedras irregulares, no estilo crazy paving, fica mais original quando composto de placas ou pedras bem maiores que o usual, ou entremeados com pequenos desenhos formados por seixos:

Via Pinterest
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Juntas de grama, seixos ou pedriscos em pisos de madeira, pedras, placas de cimento etc. tornam o ambiente mais aconchegante:

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Os seixos ou pedras decorativas de tonalidade mais escura podem trazer maior elegância quando combinados com material mais claro e contrastando com o verde das plantas:

Via Pinterest

Não há limites para as inovações, como se vê a seguir, onde, a partir de uma paginação padrão, foi criado um desenho especial com o uso de grama:

Via Pinterest

Abaixo, foram usados fundos de garrafas como piso. Vale como inovação, mas provavelmente arrisca-se cair quando eles estiverem molhados… E não seria recomendado andar de salto alto fino sobre eles…

Via Pinterest

Os pisos mais rebuscados apresentam desenhos intrincados, como os pisos marroquinos ou aqueles formados por seixos de diferentes tamanhos e cores, ou por pedras portuguesas de duas ou mais tonalidades:

Piso marroquino. Via Pinterest
Piso com pedras portuguesas. Via Google
Piso com desenho formado por seixos. Via Pinterest.

Seguem alguns exemplos que primam pela originalidade, além de demonstrarem a infinitude de “linguagens” que podem ser criadas com o número finito de materiais existentes:

Via Pinterest
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Em resumo, os pisos mais impactantes tendem a ser aqueles que apresentam um belo contraste de materiais, cores, e/ou formas e formatos, com perfeito equilíbrio entre eles, compondo desenhos especiais.

Piso em Great Dixter, Inglaterra. Foto: @ulamarija

Foi tudo por causa da magnólia…por Vitoria Davies

Nasci e cresci na beira de praia, e os três meses de férias eram sempre passados a um quarteirão de casa – da areia para o mar, do mar para a areia. A família, com três filhos de idades próximas, não tinha casa fora e nem dinheiro para viagens para um resort ou para alugar uma casa de campo. O meu contato com o verde era praticamente zero, tirando algumas palmeiras ao longo do calçadão e a vegetação que cobre o Morro Dois Irmãos.

Foi só aos 20 e poucos anos de idade que vim a descobrir a magia das plantas. Morava na Inglaterra nessa época, era março, e ao andar ao longo da Universidade de Londres, dei de cara com uma árvore grande, tomada de flores em tons de branco e rosa, lindíssima. Fiquei extasiada! Foi quase uma experiência mística! Descobri que era uma magnólia (Magnolia soulangeana), e jurei para mim mesma que, no dia que tivesse uma casa, plantaria uma magnólia no meu jardim…

Foto: arquivo pessoal
Magnólia no jardim da Universidade de Londres. Foto: arquivo pessoal

Essa experiência me levou a passar muitos anos estudando e aprendendo sobre plantas, jardinagem, marcando ponto em chácaras nos fins de semana, dando pitaco nos jardins de amigos – mas como hobby, porque eu já tinha uma profissão.

Seis meses depois de descobrir a magnólia, surgiu a oportunidade de comprarmos uma casa com um jardim na frente, com sol – perfeito para a minha árvore! – e um outro pequeno atrás, com meia-sombra, sem gramado ou planta alguma, apenas com uma velha pereira. Na primeira semana já plantei minha pequenina muda de magnólia.

Minha magnólia em 1985, já mais crescida. Foto: arquivo pessoal
A magnólia já adulta. Foto: arquivo pessoal, 2019

Nos meses seguintes me dediquei ao jardim de trás, estudando tudo sobre jardins de meia-sombra, solo, como plantar grama (sementes, porque mais barato…) etc. Para isso, fui à melhor livraria na época comprar um livro e, depois de analisar vários, escolhi The Small Garden, de um tal de John Brookes – claro que eu não o conhecia, era um mundo novo para mim… Virou a minha bíblia, e foi com essa ajuda que criei meu primeiro jardim 35 anos atrás, de forma um tanto amadora, mas com direito a gramado, canteiros, plantas que dariam uma cor ao jardim mesmo no inverno, trepadeiras (Clematis; roseira trepadeira), frutífera (loganberry, um híbrido de framboesa com amora) e, como não poderia faltar na casa de uma brasileira, uma rede… Foi o início do que, 20 anos depois, viria a ser minha segunda profissão.

Jardim de trás, com o loganberry crescendo sobre a treliça. Foto: arquivo pessoal

Sou muito grata à magnólia, tenho uma relação especial com ela, e cada vez que a vejo em flor, me emociono, revivo o nosso primeiro encontro, as sementes que esse encontro plantou no meu caminho, e o reencontro, muitos anos depois, através do paisagismo, com esse meu primeiro grande amor verde…

Pergunte à natureza – por Vitoria Davies

Recentemente ouvi a palavra “biomimética” pela primeira vez, na palestra do engenheiro agrônomo Sérgio Rocha, co-fundador do Instituto Cidade Jardim, organizada pelo portal Papo de Paisagista. Como ex-dicionarista, a luzinha da paixão pelas palavras logo se acendeu, e lá fui eu vasculhar tudo sobre ela.

O Instituto Cidade Jardim tinha acabado de lançar um produto inovador, o primeiro desse tipo no mundo: a Kaatop, uma telha térmica tipo sanduíche, hidropônica (portanto dispensa a necessidade de substrato) para fazer telhados e paredes verdes sem precisar de laje ou manta de impermeabilização – diferentemente de todos os sistemas hoje usados mundo afora, que requerem instalação sobre uma cobertura previamente impermeabilizada. A Kaatop simula o funcionamento dos tecidos vegetais em uma folha.

O produto é um exemplo da aplicação da Biomimética, ciência que se inspira em elementos da natureza – como formas, funções e sustentabilidade – para desenvolver projetos dos mais variados tipos em áreas que vão da indústria têxtil à inteligência artificial.

O termo biomimetics, “biomimética”, (derivado das palavras gregas bio (vida) e mimesis (imitação), foi cunhado pelo engenheiro biomédico americano Otto Schmitt em 1969 para designar a ciência que estuda e imita os métodos, mecanismos e processos da natureza, em substituição ao termo utilizado até então, bionics,  “biônica”, cunhado em 1960 pelo psiquiatra e engenheiro Jack Steele e que designava a aplicação de conhecimentos de Biologia na solução de problemas de engenharia e design.

Na realidade, o uso da natureza como fonte de inspiração para a criação de novas tecnologias é antigo. Leonardo da Vinci (1452–1519) fez inúmeras anotações e esboços de máquinas voadoras baseando-se na anatomia e no voo dos pássaros. Em 1941, o engenheiro George de Mestral inventou o velcro ao sentir dificuldade em remover os carrapichos presos nos pelos do seu cão. Resolveu analisá-los com um microscópio e descobriu que a semente dessa planta tem filamentos entrelaçados com pequenos ganchos na ponta, que se engancham facilmente em qualquer superfície com laços, como pelos de animais e tecidos. E decidiu replicar isso sinteticamente.

Surgiu, porém, um novo conceito de Biomimética em 1997, quando a bióloga norte-americana Janine Benyus lançou seu livro Biomimicry: Innovation Inspired by Nature (Biomimética: Inovação inspirada pela natureza), cunhando o termo biomimicry, traduzido em geral por “biomimética”, em português.

A biomimética de Janice Benyus tem objetivos mais amplos; o foco não é mais no avanço tecnológico apenas, mas na criação de tecnologias sustentáveis, recorrendo aos milhões de organismos e ecossistemas no planeta para aprender suas estratégias de sobrevivência, de preservação dos recursos e do meio ambiente e, dessa forma, reverter os estragos feitos pelo homem nos cerca de 200 mil anos que habita a Terra… Para isso, ela fundou em 2006 o Biomimicry Institute (Instituto de Biomimética) – https://biomimicry.org – com o propósito de tornar a Biomimética uma parte natural do processo de design e desenvolvimento de tecnologias, compartilhando as lições da natureza com aqueles que constroem o nosso mundo. E em 2008 lançou o site http://www.asknature.org, que contém um catálogo de soluções da natureza para desafios tecnológicos diversos. (Vale a pena ouvir sua palestra do TED em https://www.ted.com/talks/janine_benyus_shares_nature_s_designs)

Entre algumas das criações que utilizaram a Biomimética estão

robôs cujos movimentos são inspirados na propulsão de protozoários; padrões de sinalização para mobilidade urbana entre veículos e pedestres baseados no comportamento de formigas (que diminuem índices de acidentes); o aperfeiçoamento da transmissão de informações pela internet baseado no comportamento de abelhas, que apresentam algoritmos capazes de melhorar a transmissão; uma garrafa de água que absorve e armazena a umidade do ar e a transforma em água potável, imitando o processo de captura e armazenamento de água do besouro da Namíbia, que habita o deserto da Namíbia e se utiliza desse mecanismo para sobreviver.

Os japoneses solucionaram o problema de poluição sonora do trem-bala inspirando-se na aerodinâmica do pássaro martim-pescador. Remodelaram a parte frontal do veículo para um formato similar ao bico do martim-pescador, e os trens não só passaram a viajar de maneira mais silenciosa, mas também se tornaram 10% mais rápidos e 15% mais econômicos.

Na vanguarda de projetos arquitetônicos sustentáveis inspirados na natureza está o belga Vincent Callebaut (www.vincent.callebaut.org). Um de seus projetos, a Tao Zhu Yin Yuan Tower, ou Agora Garden, um prédio residencial em Taipei, capital de Taiwan, irá ajudar a reduzir a poluição do ar. A fachada, cobertura e varandas do prédio terão aproximadamente 23 mil árvores e arbustos. A estimativa é de que a construção venha a absorver 130 toneladas de dióxido de carbono por ano.

Para esse projeto, o arquiteto se inspirou na dupla hélice do DNA:

Como afirma o professor Mehmet Sarikaya: “Estamos no limiar de uma revolução de materiais equivalente à que houve na Idade do Ferro e na Revolução Industrial, e a biomimética será o mais importante agente que modificará profundamente a forma de como nos relacionamos com a natureza e com nós mesmos.”

Leonardo da Vinci ja dizia: “Aqueles que são inspirados por outro modelo que não a natureza, a mestre acima de todos os mestres, estão trabalhando em vão.”

Projetando um jardim à moda de John Brookes – por Vitória Davies

Um dos principais aprendizados na minha formação em Paisagismo pela escola The English Gardening School, em Londres, foi projetar um jardim utilizando o método do grid (método da grelha) do grande paisagista inglês John Brookes (1933-2018), que é e um de seus maiores legados. A fundadora da escola e uma de nossas mestras, Rosemary Alexander, havia trabalhado por muitos anos com Brookes, sendo forte adepta dessa metodologia.

No final dos anos 1950, Brookes comecou a associar arte moderna com paisagismo, influenciado pelo pintor holandês Piet Mondrian e pelo pintor inglês Ben Nicholsen. Naquela altura, Brookes tinha ido trabalhar na revista Architectural Design com a função de redesenhar plantas de arquitetos para publicação. As pinturas de Mondrian e Nicholsen o ajudaram a ter melhor compreensão das linhas horizontais e verticais em arquitetura, o que por sua vez, o levou a desenvolver o método do grid, para jardins de pequeno porte especialmente.

O objetivo dessa metodologia era que o jardim se adequasse às proporções da casa, como uma projeção da casa, ao invés de parecer sobreposto a ela. E a maneira mais eficaz de se garantir isso seria desenhá-lo utilizando uma grelha, ou quadrícula, baseada nas proporções da edificação ou de seus principais aposentos. Segundo Brookes, o grid unifica o jardim e permite maior fluidez aos desenhos.

Brookes é considerado o criador do jardim moderno na Grã-Bretanha por ter introduzido princípios de design para jardins. É preciso lembrar que, até ele surgir com sua metodologia, o paisagismo britânico se resumia praticamente em uma grande exposição de flores. De acordo com o paisagista, “No início da minha carreira, havia ou jardins de magníficas mansões, que tentavam imitar os jardins de Sissinghurst, ou pequenos jardins urbanos onde as plantas eram plantadas à volta de um gramado, e só… Não se pensava em termos de design. […]”

Brookes passou a tratar as plantas como blocos constitutivos; outros blocos incluíam os elementos construtivos e elementos práticos como a área gourmet, horta etc. O método do grid permitiria conjugá-los de modo que formassem um todo coeso.

Vou exemplificar essa metodologia usando o primeiro projeto que fizemos no curso. O cliente era real – uma ideia inteligente da diretora Rosemary Alexander: eram oferecidos projetos a pessoas que de fato desejavam um projeto para seus jardins; em troca, eles disponibilizariam seus jardins para que um grupo de 11 alunos (o número total de alunos na minha turma) “invadissem” suas casas para fazerem um levantamento minucioso do terreno com a ajuda do professor-topógrafo. No final do processo, receberiam 11 opções de projeto completo.

De posse da planta baixa, fomos instruídos sobre como criar o grid. O tamanho da quadrícula, isto é, o espaçamento entre as linhas verticais e horizontais, deveria se basear nos pontos ou linhas dominantes da casa (quinas, indentações, espaçamento regular entre portas e janelas etc.). Observação: Na ausência de quaisquer pontos desses, simplesmente subdivide-se o comprimento total do terreno. Assim, criamos a linha base, a linha horizontal, partindo da quina da casa, e definimos o tamanho da quadrícula com base no espaçamento entre portas e janelas:  

Grelha utilizada no projeto

Em seguida, a criação do desenho: em retângulos, quadrados, círculos, na diagonal… As opções são infinitas:

Extraído de The Essential Garden Design Workbook, por Rosemary Alexander

Optei por retângulos e quadrados. A orientação era que desenhássemos aleatoriamente essas formas na grelha, superpostas ou não, e aos poucos fôssemos apagando uma ou outra linha, desenvolvendo dessa forma o desenho final. Obviamente já tínhamos recebido o briefing da cliente, os elementos que ela gostaria de ter no jardim, e tínhamos isso em mente durante a elaboração do desenho.

O resultado final:

Vejam uma outra exemplificação, extraída do livro The Essential Garden Design Workbook, de Rosemary Alexander, em que foram usadas as portas francesas para decidir o tamanho da quadrícula.

Extraído de The Essential Garden Workbook, por Rosemary Alexander
Extraído de The Essential Garden Workbook, por Rosemary Alexander
Extraído de The Essential Garden Workbook, por Rosemary Alexander

Neste extenso jardim de uma casa no campo, foi feita uma grelha menor para a área mais próxima da casa, e ela foi triplicada para a área mais afastada. Observe que as linhas, tanto da quadrícula menor como da maior, partem das dimensões da casa, mantendo-se proporcionais a ela.

Extraído de The Essential Garden Design Workbook, por Rosemary Alexander

Resumindo, a regra geral é que as dimensões da grelha derivem das dimensões da propriedade, de forma que, se a casa for grande, a grelha deverá também ser grande, e vice-versa.

Mas, como costumava dizer John Brookes, “A grelha não é para ser um colete-de-força, mas apenas uma maneira de se pensar em termos de proporção.”