Contrato de prestação de Serviços – por João Jadão

Dia desses me deparei com o banner abaixo, e imediatamente pensei:  a Vidente Morgana traz o amor impossível, e garante em contrato!!

Lembrei que um dos pedidos aqui do Papo de Paisagista era falarmos sobre contrato, então aí vai…

O Contrato de Prestação de Serviços é o instrumento que vai formalizar o negócio jurídico firmado entre as partes, onde o prestador se obriga a realizar alguma atividade em troca de uma remuneração do tomador.

Ali se asseguram os direitos e deveres assumidos pelas partes, e portanto quanto mais detalhado, melhor.  Se traduz em uma garantia para quem está contratando e para quem está sendo contratado.

As principais Cláusulas de um contrato são:
Qualificação das partes – O objeto do contrato – As obrigações do Contratado e Contratante – Preço, condições e prazo de pagamento – Reajuste – Vigência – Rescisão – Multa e penalidades – Assinatura de ambas as partes e de testemunhas.

É claro que o ideal é consultar um advogado para a confecção de um contrato que atenda suas necessidades e que seja juridicamente válido.

Dependendo da natureza dos serviços, se é projeto, execução ou manutenção de jardim utilizo contratos mais simplificados ou um pouco mais complexos.

A ANP – Associação Nacional de Paisagismo oferece aos seus associados uma assessoria jurídica que pode sanar suas dúvidas.

E claro, também podemos trocar informações e contratos entre nós. 

Se até a vidente está garantindo seu serviço em contrato, porque nós paisagistas não vamos garantir ?

Amazônia e sua riqueza nas florestas de várzea – por Fátima Orlandi Junqueira

Dando continuidade ao tema Amazônia abordado na coluna anterior, irei hoje elencar outras espécies vegetais que vi por lá e que ocupam a floresta fluvial alagada, especificamente as matas de várzea. Estas florestas são planícies inundáveis invadidas por enchentes sazonais, onde encontramos árvores de médio e grande porte como embaúbas, sumaumeiras e copaíbas e alguns tipos de palmeiras como o açaí, o buriti e a pupunha.

Fonte: acervo pessoal

1- Cecropia (embaúba)

Fonte: Google

Existem várias espécies do gênero Cecropia, presentes em quase todos os biomas do território brasileiro além da região Amazônica.

Característica geral da espécie: Árvore perenifólia, altura de 4-15 m (dependendo da espécie) e floresce de agosto a novembro (depende da espécie). Árvore muito bela em virtude de sua folhagem prateada e seus frutos são muito apreciados pela fauna.
Uso: A madeira é leve, empregada para confecção de brinquedos, caixotaria e polpa celulósica. Tem rápido crescimento. É uma espécie importante nos
reflorestamentos de áreas degradadas de preservação permanente e no paisagismo por apresentar qualidades ornamentais.

2 – Ceiba pentandra (sumaúma)

Fonte: Google

Característica geral da espécie: Árvore decídua com porte gigantesco, altura de 30-40 m e floresce de agosto a setembro com a planta quase totalmente despida de folhagem;
Uso: A madeira é leve, e é empregada na construção de embarcações, compensados e produção de celulose. A pluma que envolve as sementes é utilizada na confecção de boias e salva-vidas, para enchimento de colchões e como isolante térmico. Das sementes extrai-se um óleo que é comestível e que serve para a fabricação de sabões e lubrificantes e usado em iluminação. A torta das sementes serve de ração para animais e também como adubo.

3 – Copaifera langsdorffii (copaíba)

Fonte: Google

Característica geral da espécie: Planta decídua ou semidecídua, altura de 10-
15 m e floresce de dezembro a março, suas sementes são bem disseminadas por pássaros;
Uso: A madeira é pesada, indicada para construção civil, para vigas, caibros,
lambris, assoalhos e etc. Fornece o óleo de copaíba que é terapêutico; o bálsamo é a seiva extraída mediante a aplicação de furos no tronco até atingir o cerne. É uma alternativa nos reflorestamentos de áreas degradadas de preservação permanente e na arborização rural e urbana.

4 – Palmeira Euterpe oleracea (açaí)

Fonte: Google

Característica geral da espécie: A palmeira cresce em touceiras e pode atingir até 20 m de altura. Floresce e frutifica durante todo o ano com predominância nos meses de julho a dezembro;
Uso: Seu fruto tem grande valor na indústria de alimentos e bebidas.

5 – Palmeira Mauritia flexuosa (buriti)

Fonte: Google

Característica geral da espécie: A palmeira cresce isoladamente ou em comunidades e exige abundante suprimento de água no solo. Espécie de porte elegante e pode atingir até 35 m de altura.
Uso: Têm várias utilidades, as suas folhas são usadas na fabricação de cordas, as raízes na medicina popular e o tronco para produção de canoas. Sua semente, a amêndoa, é comestível e a polpa é utilizada na produção de licores, vinho, doces e etc.

6 – Palmeira Bactris gasipaes (pupunha)

Fonte: Google

Característica geral da espécie: Esta palmeira tem rápido crescimento e cresce em touceiras, sendo seu caule central espinhoso. Espécie que pode atingir até 20 metros de altura.
Uso: O fruto quando cozido é um alimento com alto valor nutritivo, além de fornecer o palmito, uma iguaria valiosa com grande aceitação no mercado.

Isso foi um pouco mais da riqueza natural extraordinária dessa região, já que mostra o valor desse ecossistema, no qual cada espécie desempenha sua função vital para o equilíbrio dele. Irei divulgar outras espécies vegetais ao longo do tempo quando retornar esse tema no blog.

Vale lembrar que muitas palmeiras, árvores, espécies vegetais que contém
substâncias para uso medicinal são muito pouco utilizadas para o paisagismo, e conhecendo melhor suas características podemos introduzi-las diversificando e valorizando esta vasta vegetação nativa.

Fonte: acervo pessoal

Quando olhamos a floresta de perto percebemos quão pequenos somos frente a toda essa exuberância, e devemos ter a certeza que é o nosso dever lutar para impedir que ações antrópicas coloquem em risco a integridade dos ecossistemas e os direitos coletivos de seus habitantes. É imprescindível utilizar a floresta de forma racional, renovando-a com as mesmas espécies nativas, preservando as regiões de santuários de flora e fauna a fim de manter o equilíbrio ecológico, o regime de chuvas, e todos os benefícios que repercutem em função de sua existência plena. Vamos nos engajar em ações que visem esse propósito. Essa luta é de todos nós! Até a próxima!

Que tipo de cliente você atrai? por Chris Lara

Assistindo a uma palestra de um paisagista famoso na internet, fiquei surpresa quando ele disse: “A cliente era muito cafona e me pedia coisas que não poderia atender”. Detalhe: ele estava ali apresentando projetos que considera de sucesso em sua carreira. Aquilo me fez pensar. Se o estilo dos dois, profissional e cliente, é tão diferente, será que o resultado final do trabalho vai agradar a ambos?

Casos como esse podem indicar que tem alguma coisa errada na comunicação e no posicionamento de imagem construído pelo profissional para sua marca. Para evitar esse tipo de situação, esses conceitos precisam ser levados para diversas dimensões que envolvem a construção de identidade da sua marca e a forma como deseja se posicionar no mercado.

Essas dimensões envolvem desde questões físicas — como o logotipo, a identidade visual, o conteúdo e a forma de apresentação de uma proposta — até a história que você conta em todos os pontos de contato com o seu público, seja pessoalmente ou no meio digital.

São esses elementos que tornam a sua marca tangível e fazem as pessoas quererem se conectar com você e contratar seu serviço.

Uma boa identidade de marca deve:

1 – Mostrar ao mercado quem você é:
Apresentar sua bagagem, experiência prévias, o estilo do seu trabalho, um pouco dos seus gostos e interesses.

2 – Indicar como resolve os problemas que seus clientes apresentam:
Isso envolve uma explicação prática sobre a forma como atende seus clientes e como busca oferecer uma boa experiência durante o processo. Quando um cliente te contrata, o resultado final do projeto é o mínimo que ele espera. A experiência toda (antes, durante e depois) é muito importante e pode ser o ponto que vai te diferenciar e gerar fidelização e recomendações.

3 – Transmitir como você quer que as pessoas se sintam ao escolher o seu serviço:
Nesse caso, nada melhor que o depoimento dos próprios clientes.

Se você não quer fazer projetos para pessoas que tem o estilo muito diferente do seu, precisa deixar isso claro de alguma forma na sua mensagem. Mas se está disposto a diversificar seu portfólio, insira essa flexibilidade na sua mensagem. Talvez não pareça, mas quem você atrai como cliente é responsabilidade sua.

Foi tudo por causa da magnólia…por Vitoria Davies

Nasci e cresci na beira de praia, e os três meses de férias eram sempre passados a um quarteirão de casa – da areia para o mar, do mar para a areia. A família, com três filhos de idades próximas, não tinha casa fora e nem dinheiro para viagens para um resort ou para alugar uma casa de campo. O meu contato com o verde era praticamente zero, tirando algumas palmeiras ao longo do calçadão e a vegetação que cobre o Morro Dois Irmãos.

Foi só aos 20 e poucos anos de idade que vim a descobrir a magia das plantas. Morava na Inglaterra nessa época, era março, e ao andar ao longo da Universidade de Londres, dei de cara com uma árvore grande, tomada de flores em tons de branco e rosa, lindíssima. Fiquei extasiada! Foi quase uma experiência mística! Descobri que era uma magnólia (Magnolia soulangeana), e jurei para mim mesma que, no dia que tivesse uma casa, plantaria uma magnólia no meu jardim…

Foto: arquivo pessoal
Magnólia no jardim da Universidade de Londres. Foto: arquivo pessoal

Essa experiência me levou a passar muitos anos estudando e aprendendo sobre plantas, jardinagem, marcando ponto em chácaras nos fins de semana, dando pitaco nos jardins de amigos – mas como hobby, porque eu já tinha uma profissão.

Seis meses depois de descobrir a magnólia, surgiu a oportunidade de comprarmos uma casa com um jardim na frente, com sol – perfeito para a minha árvore! – e um outro pequeno atrás, com meia-sombra, sem gramado ou planta alguma, apenas com uma velha pereira. Na primeira semana já plantei minha pequenina muda de magnólia.

Minha magnólia em 1985, já mais crescida. Foto: arquivo pessoal
A magnólia já adulta. Foto: arquivo pessoal, 2019

Nos meses seguintes me dediquei ao jardim de trás, estudando tudo sobre jardins de meia-sombra, solo, como plantar grama (sementes, porque mais barato…) etc. Para isso, fui à melhor livraria na época comprar um livro e, depois de analisar vários, escolhi The Small Garden, de um tal de John Brookes – claro que eu não o conhecia, era um mundo novo para mim… Virou a minha bíblia, e foi com essa ajuda que criei meu primeiro jardim 35 anos atrás, de forma um tanto amadora, mas com direito a gramado, canteiros, plantas que dariam uma cor ao jardim mesmo no inverno, trepadeiras (Clematis; roseira trepadeira), frutífera (loganberry, um híbrido de framboesa com amora) e, como não poderia faltar na casa de uma brasileira, uma rede… Foi o início do que, 20 anos depois, viria a ser minha segunda profissão.

Jardim de trás, com o loganberry crescendo sobre a treliça. Foto: arquivo pessoal

Sou muito grata à magnólia, tenho uma relação especial com ela, e cada vez que a vejo em flor, me emociono, revivo o nosso primeiro encontro, as sementes que esse encontro plantou no meu caminho, e o reencontro, muitos anos depois, através do paisagismo, com esse meu primeiro grande amor verde…

Reconexão com a natureza – por Fernanda Pereira de Almeida

Estive pensando em que tema falaria, e vou começar uma série de postagens sobre viagens que fiz e que me enriqueceram como profissional.

Para mim viajar é uma das melhores coisas da vida, momentos em que podemos parar, pensar, vivenciar e aprender muito com outras culturas, paisagens, sabores, cheiros. Estive na Califórnia agora em julho e pude realizar um dos meus maiores sonhos que foi ver as SEQUOIAS!

Fui ao MARIPOSA GROVE em Yosemite e ao entrar no parque, senti uma emoção enorme ao ver pela primeira vez uma Sequoia, me senti tão pequenina diante da imensidão e da força da natureza que uma sequoia transmite, que privilégio poder ver as sequoias gigantes milenares e estar naquele santuário com um dos seres vivos mais antigos da face da terra! Nesse parque a sequoia mais antiga tem 1.600 anos!

Sequoia com 70 metros de altura – Foto: arquivo pessoal

Estar com árvores milenares a sua volta, de uma altura gigantesca nos remete ao quanto somos impotentes diante da natureza e também o quanto somos responsáveis por ela. Me senti tão reconectada com a natureza e com minha essência.

Foto: Arquivo pessoal

As Sequoias são bem protegidas e muito bem cuidadas pelo parque nacional de YOSEMITE, mas não estão desconectadas do resto do mundo e suas transformações. As famílias das chamadas sequoias Red Wood dominavam as florestas do hemisfério norte há milhões de anos atrás, mas hoje estão presentes em apenas 03 partes do globo terrestre e vulneráveis às mudanças climáticas provocadas pelo homem, comprometendo sua sobrevivência e sua reprodução. E pensar que as sequoias estiveram presentes em vários locais do planeta em florestas majestosas e inimagináveis! Como destruímos nosso planeta!

Existem estudos e equipes nos EUA, fazendo clonagens das sequoias e replantando milhares delas, pois acreditam que as sequoias possam arrefecer o clima do planeta, por conseguirem sobreviver a queimadas, e há tantos anos, o único problema é que seu crescimento é lento demais comparado à velocidade da alteração climática que o planeta vem sofrendo.

Tudo isso me faz pensar e sentir responsável pelo meu trabalho e o que podemos devolver ao nosso planeta com pequenas ações e atitudes!

Como nosso trabalho de paisagistas é importante para educar e preservar nossos biomas! Fica a reflexão!

Até o próximo post!

Menos tendência, mais essência – por Chris Lara

Um caminho para a diferenciação

Durante uma palestra sobre arte brasileira, o pesquisador e curador de um acervo rico de artistas do sertão, Pedro Olivotto, falou sobre a diferença entre arte popular e artesanato: “O artesanato não dói, ele é a repetição de algo. Para ser arte, tem que doer, é parir uma obra de cada vez”.

Essa reflexão vale para todas as profissões, pois ela fala da essência criadora que existe dentro de cada um. Ela é o caminho que o profissional precisa percorrer para se diferenciar e construir uma identidade própria — ou, como ouvimos muito no mercado artístico, “uma assinatura”. Seria uma forma de se distanciar do senso comum e se aproximar do que você quer e do que você é.

Repertório é criatividade

Apesar de o processo criativo parecer uma coisa muito natural para paisagistas, gostaria de trazer uma nova abordagem. A visão de que criatividade não é um dom. É um processo e pode ser aprendido, exercitado ou aprimorado.

Criatividade é a capacidade de encontrar soluções diferentes para as situações e problemas que se apresentam ao longo da vida. E uma forma de potencializa-la é por meio do repertório. Fazer input de novas informações, referências e ideias de forma consciente, sem necessariamente ficar preso só ao paisagismo. O olhar de aprendizado pode ser expandido para tudo o que está à sua volta.  A curiosidade e a vontade de aprender o tempo todo fazem com que o repertório fique mais diversificado e a criatividade se potencializa naturalmente.

Outro passo é o exercício da imaginação. Processar esse repertório mentalmente faz com que você crie imagens a partir do que está consumindo e experimentando, de novo, de forma consciente. Eu, por exemplo, faço isso para construir o enredo de todos os textos que trago aqui para o blog do Papo de Paisagista. Muitas vezes a ideia do artigo nasce quando leio uma frase em um contexto completamente diferente do marketing ou do paisagismo.  Seria como criar um projeto mentalmente quando você vê algo em potencial — seja um espaço, uma planta, uma peça ou qualquer outra coisa que gostaria de usar. Exercitar de forma livre, sem todas aquelas exigências e expectativas do cliente, ou limitações de orçamento.

Brincar com a arte de forma mais livre ajuda a na compreensão e consolidação do seu estilo de trabalho. Ao mesmo tempo, organizar sua forma de aprendizado e exercício criativo te mantém focado nesse processo de construção contínuo.

Um Jardim com Sentimentos – por Marcilene Monzani

Você já pensou nas motivações que nos levam a desejar um jardim no espaço em que vivemos? E o desejo de trazermos, um pouquinho que seja, da natureza para nossos lares. Instintivamente buscamos a proximidade com a natureza, pois a ela somos imanentes.

Refletindo a respeito, lembrei-me do jardim na casa da minha avó e na maneira como ela dele cuidava. Eu ainda uma criança, estava sempre rodeando-a e observava como ela prazerosamente se dedicava àquele jardim.

Fonte imagem – Pinterest

Com diversas plantas cultivadas diretamente no chão, em potes, latas e baldes velhos, tudo junto e misturado, e tudo ia muito bem, obrigada!

Cada planta trazia em si uma estória. A pequena muda de Gerânio fora presente de uma tia avó. A Dália, a filha do meio trouxe de um passeio…

Capitão do campo – Fonte imagem – Arquivo pessoal

Existia uma interação entre ela e o jardim. Quando estava feliz, cantava enquanto regava, as vezes apenas conversava e em alguns momentos, com o aspecto mais triste, orava. Era o momento dela e ali, enquanto se conectava com as plantas, se desligava das outras preocupações. Era uma verdadeira terapia.

Aquele era um Jardim com sentimentos. Recordo-me claramente, enquanto caminhava pelas ruelas entre as plantas, minha avó conversando com as flores. Puro elogio! Como se entendessem cada palavra. A flor mais bela era promovida ao altar da Santinha, que agradecia com novos brotos.

Dália amarela- Fonte imagem – Arquivo pessoal

Não me lembro de nenhuma planta perecer ou morrer. Eram resistentes, talvez pelo fato de se sentirem profundamente amadas.

Hoje, procuro entender as mudanças da vida moderna e como podemos nos reconectar a natureza, que em algum momento da correria do cotidiano, nos desligamos.

Em minhas atividades como Paisagista, recebo constantemente solicitações por espécies que não “deem trabalho” e alguns demonstrando claramente a preocupação meramente estética. Não que o visual não importe, mas procuro resgatar nas memórias de cada um, espécies que lhes proporcionem boas lembranças e sempre que possível encaixá-las no projeto para que o jardim vá além de apenas decoração e assim resgatar o prazer pelo cultivo, pelos cuidados de ver florescer, frutificar, de sentir o perfume e o sabor, de dividir emoções e expandir, nesse pequeno ecossistema que é o jardim, e resgatar a importante e necessária interação homem /natureza.

Plantas de plástico e plantas permanentes são realmente plantas? por Rachel Castanheira

Vive-se num momento de grandes transformações globais, na nossa área profissional, o paisagismo, não poderia ser diferente. O advento da revolução tecnológica tem trazido acesso à informação e ao desenvolvimento de plantios de diversas espécies, que antes eram limitados
a poucas pessoas no mundo. E isso é muito bom. O compartilhamento de informações e o acesso às espécies, que antes não eram cultivadas em maior escala, têm trazido uma amplitude de possibilidades para os apreciadores e profissionais da área. O potencial de cada projeto é único (podemos levar a diversidade e complexidade presente na natureza para
dentro das residências). No entanto, existe um fenômeno recente e que tem crescido de forma surpreendente, que é a substituição da utilização de plantas vivas nos projetos paisagísticos por plantas de plástico ou plantas permanentes – plantas vivas que são mortas e tratadas, de forma a manter a sua forma original. Os argumentos utilizados, geralmente, em prol da colocação dessas plantas mortas levam a crer que a natureza está sendo levada para dentro de casa. Será? Plantas de plástico e plantas permanentes, realmente levam vida para dentro de casa? Trazem realmente os benefícios que as plantas vivas proporcionam aos ambientes? É o que pretendemos explorar neste texto.

Num momento em que as questões ambientais e climáticas estão tão em voga, surge um fenômeno “novo” e contraditório na nossa área, que é a introdução de plantas de plástico e plantas permanentes nos projetos de paisagismo. A despeito da grande diversidade oferecida pela natureza e ao grande acesso existente atualmente, às mais diversas espécies encontradas
nos quatros cantos do planeta, estamos vivenciando esse fenômeno da substituição das plantas vivas por plantas mortas e artificiais.

Painel vertical com plantas de plástico (fonte: arquivo pessoal)

Conversando com os profissionais que estão adotando essas plantas nos projetos e com os clientes que estão acatando essa recomendação, a justificativa para essa prática quase sempre permeia o fato dessas plantas trazerem a natureza e sua beleza para os ambientes, bem como os moradores das residências não terem trabalho para cuidar nem custo para substituir possíveis plantas que possam morrer (por motivo de doença ou falta de cuidados apropriados).

Vaso Planta de Plástico (fonte: Pinterest)

Ou seja, elas são muito mais práticas, econômicas (no longo prazo), pois não requerem rega, podem ser utilizadas em locais que supostamente não comportariam uma planta natural e acabam levando da mesma maneira a “natureza” para dentro das residências.

Apesar de alguns desses argumentos serem coerentes, será que essas plantas mortas trazem de fato a natureza para as nossas residências?

Já adiantamos que o intuito deste texto não é dividir ou gerar uma separação entre os adeptos e não adeptos de plantas de plástico e plantas permanentes. O nosso mundo já está repleto de divisões e, de forma alguma, este texto pretende contribuir ainda mais com essa separação. A natureza, inclusive, espelha todos os dias para nós a importância da integração e da cooperação.

Porém, é importante refletirmos se ao colocarmos plantas mortas nas residências, teremos de fato a natureza presente em nossas casas.

Para adentrarmos nessa questão, vamos falar um pouco da natureza, no caso, das plantas vivas. Uma planta viva é literalmente um ser vivo que respira, se alimenta, cresce, se desenvolve, floresce (em muitas das vezes), se multiplica e que também adoece e morre. É um ser vivo em constante modificação de si. Não se trata de um ser estático, morto, previsível. Tem sua própria dinâmica de desenvolvimento e, de fato, está sujeito a mudanças, sem aviso prévio.

Um ambiente que contém plantas vivas é (redundantemente) mais vivo, dinâmico, aconchegante, refrescante, suave. Muitas espécies de plantas auxiliam inclusive na purificação do ar, auxiliando no tratamento de doenças respiratórias. Para não falar nos benefícios já comprovados no auxílio do tratamento das chamadas doenças da alma (depressão, ansiedade e afins).

Painel Vertical com plantas vivas. Projeto: Rachel Castanheira Paisagismo

Além disso, a colocação de plantas vivas em nossos ambientes traz a possibilidade também de contemplarmos a natureza durante o nosso cotidiano, no dia a dia. Basta uma simples pausa para nos reconectarmos com nós mesmos, através da contemplação dessas belezas que a natureza nos oferece.

Um toque numa folha, o respirar do aroma de um jasmim, o furo proveniente de um espinho que não tomamos cuidado. A natureza é simplesmente inspiradora. Um presente para podermos relembrar da nossa essência, do natural que há em cada um de nós.

Agora, retomando a questão central do texto, será que ao trazermos plantas mortas ou artificiais para dentro de casa, estamos de fato trazendo a natureza para os nossos ambientes?

Diria que não. De fato, não. Podemos até nos referir a uma possível lembrança da natureza ao vermos essas plantas, mas são simplesmente lembranças mortas, decorativas, artificiais. Não têm vida. Não trazem vida. Não interagem. Não contribuem para essa reconexão com a nossa essência. Não encantam e nem perfumam o nosso dia a dia. Não nos fazem perceber a beleza que é podermos morar num lugar lindo como o nosso planeta. Um local com diversidade, pluralidade de belezas naturais.

Celebremos a natureza! Ela é uma grande professora para todos nós.

Num momento planetário de tantas transformações, inclusive climáticas e do meio ambiente, trazer a natureza (viva) para dentro de casa parece ter muita relevância (talvez, sempre tenha tido, porém, neste momento, tem tido um importante papel de recordação da relevância de nos reconectarmos conosco e com o meio ambiente). Estamos integrados e a noção de separação entre nós e a natureza parece ser somente uma percepção distorcida da realidade. Fazemos parte de um sistema vivo planetário, cósmico. E a natureza talvez seja a grande professora, esquecida ao longo desses milênios. Sempre disponível e aberta para nos ensinar. Sem nada nos exigir. Sentido de cooperação inerente a sua própria existência.

Fonte: arquivo pessoal

Plantas de plástico, permanentes ou plantas vivas?

Talvez a reflexão mais importante que podemos fazer é que uma não é substituta da outra. São coisas completamente diferentes. Se pensarmos nas plantas de plástico ou plantas permanentes como adornos, enfeites sem vida, creio que estaríamos colocando-as no seu devido lugar. Agora, se estamos falando em trazer a natureza para o nosso habitat, em trazer a beleza, a suavidade e todos os benefícios que esses lindos seres vivos proporcionam aos ambientes que habitam, sem sombra de dúvidas, estamos falando das plantas vivas.

Pergunte à natureza – por Vitoria Davies

Recentemente ouvi a palavra “biomimética” pela primeira vez, na palestra do engenheiro agrônomo Sérgio Rocha, co-fundador do Instituto Cidade Jardim, organizada pelo portal Papo de Paisagista. Como ex-dicionarista, a luzinha da paixão pelas palavras logo se acendeu, e lá fui eu vasculhar tudo sobre ela.

O Instituto Cidade Jardim tinha acabado de lançar um produto inovador, o primeiro desse tipo no mundo: a Kaatop, uma telha térmica tipo sanduíche, hidropônica (portanto dispensa a necessidade de substrato) para fazer telhados e paredes verdes sem precisar de laje ou manta de impermeabilização – diferentemente de todos os sistemas hoje usados mundo afora, que requerem instalação sobre uma cobertura previamente impermeabilizada. A Kaatop simula o funcionamento dos tecidos vegetais em uma folha.

Foto: www.institutocidadejardim.com.br
Foto: www.institutocidadejardim.com.br

O produto é um exemplo da aplicação da Biomimética, ciência que se inspira em elementos da natureza – como formas, funções e sustentabilidade – para desenvolver projetos dos mais variados tipos em áreas que vão da indústria têxtil à inteligência artificial.

O termo biomimetics, “biomimética”, (derivado das palavras gregas bio (vida) e mimesis (imitação), foi cunhado pelo engenheiro biomédico americano Otto Schmitt em 1969 para designar a ciência que estuda e imita os métodos, mecanismos e processos da natureza, em substituição ao termo utilizado até então, bionics,  “biônica”, cunhado em 1960 pelo psiquiatra e engenheiro Jack Steele e que designava a aplicação de conhecimentos de Biologia na solução de problemas de engenharia e design.

Na realidade, o uso da natureza como fonte de inspiração para a criação de novas tecnologias é antigo. Leonardo da Vinci (1452–1519) fez inúmeras anotações e esboços de máquinas voadoras baseando-se na anatomia e no voo dos pássaros. Em 1941, o engenheiro George de Mestral inventou o velcro ao sentir dificuldade em remover os carrapichos presos nos pelos do seu cão. Resolveu analisá-los com um microscópio e descobriu que a semente dessa planta tem filamentos entrelaçados com pequenos ganchos na ponta, que se engancham facilmente em qualquer superfície com laços, como pelos de animais e tecidos. E decidiu replicar isso sinteticamente.

Foto: www.razoesparaacreditar.com

Surgiu, porém, um novo conceito de Biomimética em 1997, quando a bióloga norte-americana Janine Benyus lançou seu livro Biomimicry: Innovation Inspired by Nature (Biomimética: Inovação inspirada pela natureza), cunhando o termo biomimicry, traduzido em geral por “biomimética”, em português.

A biomimética de Janice Benyus tem objetivos mais amplos; o foco não é mais no avanço tecnológico apenas, mas na criação de tecnologias sustentáveis, recorrendo aos milhões de organismos e ecossistemas no planeta para aprender suas estratégias de sobrevivência, de preservação dos recursos e do meio ambiente e, dessa forma, reverter os estragos feitos pelo homem nos cerca de 200 mil anos que habita a Terra… Para isso, ela fundou em 2006 o Biomimicry Institute (Instituto de Biomimética) – https://biomimicry.org – com o propósito de tornar a Biomimética uma parte natural do processo de design e desenvolvimento de tecnologias, compartilhando as lições da natureza com aqueles que constroem o nosso mundo. E em 2008 lançou o site www.asknature.org, que contém um catálogo de soluções da natureza para desafios tecnológicos diversos. (Vale a pena ouvir sua palestra do TED em https://www.ted.com/talks/janine_benyus_shares_nature_s_designs)

Entre algumas das criações que utilizaram a Biomimética estão

robôs cujos movimentos são inspirados na propulsão de protozoários; padrões de sinalização para mobilidade urbana entre veículos e pedestres baseados no comportamento de formigas (que diminuem índices de acidentes); o aperfeiçoamento da transmissão de informações pela internet baseado no comportamento de abelhas, que apresentam algoritmos capazes de melhorar a transmissão; uma garrafa de água que absorve e armazena a umidade do ar e a transforma em água potável, imitando o processo de captura e armazenamento de água do besouro da Namíbia, que habita o deserto da Namíbia e se utiliza desse mecanismo para sobreviver.

Os japoneses solucionaram o problema de poluição sonora do trem-bala inspirando-se na aerodinâmica do pássaro martim-pescador. Remodelaram a parte frontal do veículo para um formato similar ao bico do martim-pescador, e os trens não só passaram a viajar de maneira mais silenciosa, mas também se tornaram 10% mais rápidos e 15% mais econômicos.

Foto: www.medium.com

Na vanguarda de projetos arquitetônicos sustentáveis inspirados na natureza está o belga Vincent Callebaut (www.vincent.callebaut.org). Um de seus projetos, a Tao Zhu Yin Yuan Tower, ou Agora Garden, um prédio residencial em Taipei, capital de Taiwan, irá ajudar a reduzir a poluição do ar. A fachada, cobertura e varandas do prédio terão aproximadamente 23 mil árvores e arbustos. A estimativa é de que a construção venha a absorver 130 toneladas de dióxido de carbono por ano.

Para esse projeto, o arquiteto se inspirou na dupla hélice do DNA:

Foto: www.yourgenome.org
Foto: www.vincent.callebault.org

Como afirma o professor Mehmet Sarikaya: “Estamos no limiar de uma revolução de materiais equivalente à que houve na Idade do Ferro e na Revolução Industrial, e a biomimética será o mais importante agente que modificará profundamente a forma de como nos relacionamos com a natureza e com nós mesmos.”

Leonardo da Vinci ja dizia: “Aqueles que são inspirados por outro modelo que não a natureza, a mestre acima de todos os mestres, estão trabalhando em vão.”

Sou paisagista, não sou vendedor – por Chris Lara

Vem aí uma provocação para a turma que pensa “não gosto de vender”.  Todo relacionamento envolve alguma troca de valor. No caso da relação de compra e venda, as pessoas pagam com dinheiro por aquilo que tem valor para elas. Entender isso pode ajudar você — profissional de paisagismo — a perder o medo de cobrar pelo seu serviço e a cuidar mais da sua estratégia de marketing.

Quando falo em vendas, não estou falando de uma relação nociva, em que uma das partes sai prejudicada. Não é fazer um projeto com espécies caras, ou em excesso, para ganhar comissão. Definitivamente não é isso. O relacionamento precisa ser baseado na transparência e no ganha-ganha. Dito isso, vamos explorar um pouco mais possíveis ações relacionadas à venda.

Por que encarar isso como parte do negócio

Se você está lendo este artigo, possivelmente não tem uma equipe especializada para te ajudar a pensar nessa tarefa. Logo, depende do seu esforço.

Quando a venda é compreendida como um processo dentro do negócio, fica mais fácil direcionar parte da sua energia para essa atividade. Criar metas, lista de contatos, planejamento de ações de relacionamento e até estudar o assunto (e continuar lendo minha coluna aqui no Papo… hehehe).

O primeiro passo é ver o tema com naturalidade. Encare a venda como uma forma de apresentar o que tem a oferecer ao outro. Uma apresentação verdadeira, conectada com a sua essência e seus valores. Assim como você faz quando se sente a vontade conversando em uma roda de amigos.

 A venda no mundo atual

Direcionar seu esforço de venda só para o produto (planta, vaso, cadeira) ou o serviço (consultoria ou projeto de paisagismo) não é suficiente. O conceito de venda de serviço ou produto básico já virou commodity. Hoje em dia há aplicativos que fazem serviços de design e a China reproduzindo um mar de produtos diferentes em alta escala. O que isso significa? Significa que é preciso oferecer mais para atrair clientes. Vocês precisa oferecer experiência.

Sabe aquela história do “engajamento” nas redes sociais? Engajamento é uma resposta que as pessoas têm depois que VOCÊ interage com elas. As redes sociais são, apenas, uma das possíveis ferramentas.

Escolha o seu canal e explore como um artefato de venda. Se for o Instagram (sem dúvida hoje um dos canais com maior potencial de gerar negócios), mantenha presença constante. Responda mensagens, compartilhe parte da sua rotina de trabalho, mostre onde e como busca novos conhecimentos. Essa é a base da construção de uma marca nas redes sociais. A interação deve ser proativa também. Você pode visitar as páginas das pessoas com quem quer se conectar e estimular a conversa, comentando e curtindo as postagens.

Se a sua principal estratégia for relacionamento com arquitetos e designers, crie formas de manter a cadência de relacionamento com eles. Mande fotos de novos projetos, comente sobre novos aprendizados e recursos que tem para oferecer. Mostre que você acompanha de perto a carreira deles.

Outro ponto de contato muito importante, talvez o mais importante de todos em uma estratégia de vendas e relacionamento, é o seu cliente. Não é só porque já entregou o projeto que você pode sumir do mapa. Interaja com mensagens perguntando como o jardim está evoluindo, mostre que ainda lembra-se dele, por exemplo, quando vê uma planta de que ele gosta, conte novidades do seu trabalho. Explore a relação construída. Um cliente satisfeito é sempre o nosso maior promotor.

O que essa história de engajamento e relacionamento tem a ver com vendas? Ser engajado é uma forma de demonstrar comprometimento e isso mostra que você realmente se importa com algo. Engajamento também significa acreditar naquilo que está sendo feito. Ou seja, você não faz apenas porque precisa ser feito, mas também porque faz sentido para quem você é e está alinhado com o que acredita. Não tem vitrine melhor que essa.

E mais, para vender você precisa de potenciais clientes. Para ter potenciais clientes você precisa mostrar o que é capaz de entregar. Em outras palavras, tem que se manter presente na vida das pessoas.

Agora que entendeu a história do “vendedor”, lembre-se: o seu negócio depende de vendas tanto quanto da criação de novos projetos. Se você não vai terceirizar esse serviço, precisa aprender a fazer.