A evolução dos bancos de jardim – por Vitoria Davies

Ao longo dos séculos, o mobiliário para jardim foi passando por mudanças no design e nos materiais usados na sua construção.

Os antigos egípcios usavam recursos naturais na produção de mobiliário, como grama de pântano e cana, que crescem nas margens do Rio Nilo. Embora feitos para uso em interiores, os egípcios os usavam também nos jardins.

Os antigos gregos foram os primeiros a produzir mobiliário feito exclusivamente para jardim, mais tarde copiado pelos romanos. Em geral os assentos eram feitos de pedra, bastante pesados e desconfortáveis. Algo como o que a imagem abaixo mostra:

Foto: Alamy

Os exemplos mais antigos de mobiliário para jardim foram descobertos por arqueologistas ao desenterrarem Pompeia, a antiga cidade romana, e se depararem com esses itens nos jardins das antigas casas da cidade.

Na Idade Média, os jardins eram mais funcionais do que decorativos; não era um lugar para se relaxar, mas para cultivar vegetais, frutas, ervas medicinais. Os assentos eram bancos de relva ou jardineiras arrematadas com relva, como se vê em pinturas de jardins do início do século 15.

Bancos de relva em pintura medieval. Via Google
Via Google

No Renascimento, o jardim voltou a ser um ambiente onde se relaxar, tomar chá, tocar música, fazer jogos. Os assentos usados nos interiores eram levados para o jardim. Sendo pesados demais para esse leva-e-traz do jardim, não demorou para que a primeira cadeira de jardim fosse criada – a cadeira Windsor, de origem inglesa. Datada do inicio do século 18, logo se tornou popular por ser muito leve. Embora originalmente criada como cadeira de jardim, mais tarde veio a ser usada também em interiores, como cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo. cadeira de jantar ou cadeira de cozinha, com o encosto mais baixo.

Cadeira Windsor, primeira cadeira criada especificamente para ser usada em jardins, no início do século 18. Via Google
Cadeira Windsor em pintura da época. Via Google

No final do século 18 e início do século 19, já existiam jardins públicos e parques em todas as cidades. Havia grande demanda de assentos para essas áreas externas, o que resultou na criação do banco de praça.

Banco de praça icônico projetado pelo arquiteto britânico Edwin Lutyens (1869-1944). Via Google

Nesse período, também a indústria de ferro fundido começou a produzir bancos, cadeiras e mesas para a área externa.

Banco de ferro fundido. Via Google

Em meados do século 20, os jardins residenciais voltaram a ter destaque, com as pessoas se reunindo mais nas áreas externas, o que fez com que o mobiliário de jardim se tornasse uma necessidade. Novos materiais começaram a ser utilizados, em especial o plástico, e cadeiras e mesas de plástico se tornaram itens presentes em quase todos os jardins.

Hoje são produzidos todo tipo de bancos, assentos enfim, para a área externa, em diversos materiais, cores, e com designs bastante originais, ou mesmo esculturais, como se vê nos exemplos abaixo:

Banco Romeu e Julieta, criado por Stijn Goethals, Koen Baeyens e Basile Graux para a empresa Extremis. Os próprios vasos servem como pés do banco. Via Google
Banco em formato orgânico, de aço galvanizado com pintura eletrostática, criado pelo paisagista Amir Schlezinger. Via Google
Bancos como um prolongamento do piso, emergindo esculturalmente, no High Line em Nova York. Via Google
Variação sobre o mesmo tema: os bancos são uma continuação dos caminhos. Via Pinterest
Banco em forma de escultura, ou escultura em forma de banco? Via Pinterest
Via Pinterest
Please be seated, instalação criada pelo designer britânico Paul Cocksedge para o London Design Festival 2019. Via Google

Hoje realmente não há limites para a criatividade quando se trata de bancos para as áreas externas…

Um jardim holandês no Brasil – por Dorothi Bouwman e Chris Lara

A visita a um jardim temático nos trás a oportunidade de viajar, no tempo e no espaço.

A nossa viagem hoje é pelo jardim do Museu Histórico de Castrolanda (fundado em 2016), uma réplica dos jardins da região da Holanda de onde vieram as famílias que fundaram a colônia. Um jardim que além de valores culturais, nos apresenta outras formas de viver.

A proposta deste projeto envolveu a contextualização do paisagismo com a época de uma construção rural típica do tipo “Hallehuisgroep” (residência e estábulo debaixo do mesmo telhado, sendo a residência na parte da frente da construção e o estabulo ao fundo), do leste da Holanda de onde vem os imigrantes holandeses da Colônia Castrolanda.

A responsável pelo desafio de resgatar a identidade e a história de um jardim tipicamente rural holandês é a paisagista Dorothi G Bouwman, que apesar de descendente, precisou estudar a fundo os hábitos e costumes das pessoas que viviam neste tipo de propriedade no século XIX.

A cultura do jardim rural holandês

Quando se pensa em uma propriedade rural daquela época, logo vem a mente aspectos como funcionalidade e praticidade, pois o jardim era criado para atender algumas necessidades básicas da família. Estes jardins dependiam exclusivamente da dedicação da esposa, já que o marido era o responsável pelo cuidado com os animais e as atividades agrícolas. Não sobrava muito tempo e não havia terceiros para fazer a manutenção.

Praticamente todo jardim tinha uma horta, um pomar e um poço de água. Também havia a necessidade de planejar o jardim visando evitar a entrada ou saída dos animais e criar uma barreira de proteção contra ventos fortes, para isso, eram plantadas árvores altas na lateral das propriedades.

Quanto maior o poder aquisitivo, maior a quantidade de plantas ornamentais introduzidas ao longo do tempo. A mistura de plantas também era consequência das visitas que as esposas faziam, levando sempre uma muda para presentear e trocar com a vizinha.

Entre os estilos que influenciaram os jardins holandeses da época estão o estilo clássico e o de cottage, além da influência naturalista.

O projeto do jardim holandês de Castrolanda

Com este estudo inicial gerou-se uma expectativa de releitura que deveria ser clara, isto é, fácil de interpretar e de ser apreciada pelos futuros visitantes do museu.  

E assim vieram os desafios. Como trazer todos estes elementos para o jardim de forma organizada e harmoniosa? Quais espécies incluir no projeto para atender as características do clima local, que estejam disponíveis em viveiros no Brasil, e que ao mesmo tempo tenham relação com um jardim rural holandês. Na etapa da implantação, como fazer esta mistura sem parecer uma bagunça? Quais pisos utilizar que representem o estilo e que atendam as regras de acessibilidade. Como era este poço utilizado naquela época? Para o quebra-vento, qual espécie escolher?

A solução para todas estas perguntas você poderá acompanhar a seguir.

Planta baixa do projeto

A planta baixa mostra os desenhos orgânicos nos canteiros frontais e laterais, como no estilo cottage, e o estilo clássico com desenhos geométricos com um eixo que engloba a horta, o pomar, o poço e termina em um pergolado.

Fotos atuais do projeto

Vista dos canteiros orgânicos com a mistura de espécies. Foram utilizadas espécies com diferentes épocas de floração como: Rododendro, Hortensia, Budleia; Arbustos com folhas interessantes como o Mini Pitosporo, Nandina Anã, Fotinea; alguns tipos de Capins e também folhagens para forração como o Liriope, Flores anuais como a Dahlia , Salvia Farinacea , entre outros.
Pátio central com topiaria de buxinho e capim do texas observando o eixo até o pergolado ao fundo.  No piso desenhos com  paver antique , paver clay também e piso drenante , que neste caso foi escolhido para remeter a uma cobertura de pedriscos.
A horta em canteiros elevados.
Poço ao centro para retirada da água (típico da época). A alavanca era uma forma de facilitar o trabalho para a mulher.

Estas imagens mostram o Álamo piramidal como quebra vento no limite do terreno e a vista do pergolado.

Sobre a paisagista

Dorothi G Bouwman é engenheira agrônoma e paisagista, descendente de Holandeses, da colônia de Carambeí. Seu primeiro contato com o paisagismo foi em 2001, quando foi convidada para implantar um projeto de outra paisagista. Já formada em agronomia, ela experimentou novas formas de aplicar seu conhecimento e se apaixonou. Desde então seguiu se profissionalizando na área e se dedicando a novos projetos envolvendo o paisagismo.

Em seu trabalho, ela preza muito por trazer a cultura e os valores do cliente para o jardim, seja uma família ou uma empresa. “Dessa forma colocamos a identidade do cliente no jardim, e as pessoas quando visitam percebem que este local é diferente.”

Esta coluna foi uma parceria da Dorothi com a Chris Lara, para o Papo de Paisagista. Uma forma de compartilhar novas histórias e apresentar projetos e jardins inspiradores.

Imagens: Geraldine Bouwman

Sítio Roberto Burle Marx – por Juliana Freitas

Já faz tempo que eu estou com vontade de mostrar para vocês um lugar que, pelo olhar de uma paisagista, é o verdadeiro paraíso na terra, o Sitio Roberto Burle Marx no Rio de Janeiro.

Burle Marx morou no Sitio de 1973 à 1994 onde colecionava e “experimentava” o plantio de diversas espécies principalmente nativas, pintava, esculpia, cozinhava e curtia a vida !!!

O sítio tem 400 mil m² e um acervo botânico e paisagístico com aproximadamente 3.500 espécies, hoje é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e considerado um Patrimônio Cultural Brasileiro, onde acontecem diversas atividades culturais.

Espelho d´água em frente à residencia de Burle Marx – foto por Juliana Freitas

A visitação é guiada e com hora marcada mas, enquanto você não se programa para fazer esse passeio incrível, eu te mostro um pouquinho pelas fotos que fiz quando estive por lá… e olha que num lugar desses nem precisei ser muito profissional da fotografia para conseguir lindas imagens, obviamente !!!

E aí, deu pra curtir um pouquinho dessa maravilha? Eu já visitei algumas vezes e sempre me emociono.

É um lugar que me encanta e me deixa mais otimista, alegre e GRATA pela vida… de onde saio mais FELIZ e inspirada para praticar o meu propósito.

Para mim, as paisagens do sítio conectam o tempo todo o olhar com a BELEZA e consequentemente, o coração com a PUREZA divina.

Espero que tenham curtido…  e até nosso próximo Papo!!!

Quarentena, o despertar para o que faz sentido – por Helena Justo

Essa quarentena trouxe reflexões e certezas para a minha vida. Nos últimos 50 dias de isolamento, passei por várias experiências que me conectaram ainda mais com o meu lado espiritual. Meditei com frequência, busquei o autoconhecimento e apliquei reiki à distância. Uma das certezas que vou carregar daqui pra frente é que desejo cultivar cada vez mais as boas parcerias. Sempre achei que o Sol nasce para todos, que cada profissional tem seu espaço, que todos nascemos para brilhar. Nesse cenário, portanto, não há espaço para competição entre os profissionais e sim troca de experiências, trabalho colaborativo e soma de conhecimentos.

Em total sincronicidade com essa certeza, na semana passada, a minha amiga paisagista e parceira de trabalho Aline Famá, me falou sobre SORORIDADE, um conceito que tem sido muito divulgado e defendido.  De uma forma bem simplificada, significa a solidariedade e união entre as mulheres que partilham dos mesmos objetivos e propósitos. No início achei que fosse um movimento feminista, mas não é… vai muito além. É o caminhar de mãos dadas para um bem maior.

Alguns exemplos? Iniciativas de clientes, como o projeto Mulheres Empreendedoras da Luiza Helena Trajano para fomentar o empreendedorismo feminino e o projeto Olhar do Sertão, que ajuda as mulheres rendeiras. E, foi por causa desta sororidade, que a Aline me convidou no final do ano passado para desenvolvermos juntas o projeto de um Jardim Sensorial. E é com ela também que darei continuidade a este papo de hoje.  

Foto: Juliana Freitas

De forma colaborativa, unimos forças. Cada uma com sua expertise! Conseguimos criar um ambiente bonito, convidativo e ao mesmo tempo funcional. Nossa preocupação foi viabilizar as necessidades e preferências dos moradores em um espaço com apenas 30 m².

Sensações por toda parte

Fonte, jardim vertical, forno de pizza, ervas e muitas vegetações… esses foram os pedidos dos moradores.

Acolhemos o desejo do cliente e fomos um pouco além. Conseguimos envolver neste projeto os quatro Elementos da Natureza e despertar os cinco sentidos dos moradores. A ideia foi criar sensações e emoções agradáveis por meio de experiências que ligam o corpo, a mente e o espírito.

Vejam o antes e o depois do ambiente:

Fotos: Aline Famá
Foto: Aline Famá

Para alcançar o resultado desejado, abrimos canteiros no piso, repaginamos a churrasqueira, escolhemos um revestimento único para o piso, bancada, churrasqueira e forno de pizza, incluímos azulejo hidráulico, iluminação de jardim e colocamos um pergolado para dar abrigo nos dias de chuva e servir de suporte para a trepadeira florífera. 

E vocês devem estar se perguntando: Por que esse ambiente foi denominado jardim sensorial? É simples! Quando os moradores saem no quintal, automaticamente os 5 Sentidos ficam bem aguçados ao serem associados aos 4 Elementos:

Terra

Está representada em todos os cantinhos do projeto com várias vegetações em vasos, canteiros e um belíssimo jardim vertical. É exatamente a terra que estimula as primeiras sensações.

Água

Criamos um espelho d´água com uma fonte de Buda para estimular os sentimentos e emoções.

Fogo

Reestruturamos a churrasqueira e colocamos um forno de pizza. O fogo estimula a intuição e a ação. 

Ar

Contamos com a ação do vento, responsável por estimular os pensamentos.

Foto: Aline Famá

Na prática, o despertar dos cincos sentidos se traduz com muita facilidade, por meio das características e disposição das plantas.

Visão

As diferentes texturas e cores das vegetações ajudam a criar sensações visuais.

Foto: Aline Famá
Foto: Aline Famá

Tato, Olfato e Paladar

Acrescentamos as ervas aromáticas em vasos num canto especial do projeto. Além de perfumarem o ar, podem ser degustadas e representam um convite permanente ao toque.

Foto: Aline Famá

Audição

O espelho d’água com a fonte do Buda foi o ponto de partida deste projeto. O barulho e movimento da água trouxeram mais vida ao ambiente e zelam por toda a energia que ali circula. A água desperta emoções, trazendo suavidade, calma e equilíbrio aos moradores. 

Foto: Aline Famá

Então… Se, além de estimular o bem-estar e a contemplação, vocês quiserem também despertar os cinco sentidos em seus projetos utilizem: ervas, frutíferas, ornamentais de diferentes cores e texturas, fonte, espelho d’água, pedras e lareira.

Gostaram? Contem para nós. 

Aahhh e mais uma dica importante: se unam e se ajudem. Sem o outro, sem carinho, sem colaboração, sem amizade e sem verdade não chegaremos a lugar algum, se renovem!

A história do jardim – por Chris Lara

Como o storytelling pode te ajudar a conversar com seu público

Quem não gosta de uma boa história? As narrativas são parte da nossa forma de se relacionar com o mundo desde sempre.  Em casa, nas escolas, nos livros, nas telas. O próprio paisagismo tem sua história. Personagens, mudanças na forma de pensar e interagir com o ambiente, diferentes momentos do homem e a sua relação com o jardim.

As histórias marcam. Por isso elas vêm sendo usadas também pelas marcas para dar significado ao seu negócio e se conectar.  Se a técnica de storytelling – traduzido do inglês como narrativa – vem sendo amplamente usada no mundo da publicidade para falar de itens como carro e até mesmo margarina, imagina o que não é possível criar quando falamos em jardins.

A história de um jardim, seja em uma apresentação de projeto ou em um dialogo nas redes sociais, pode ser um convite a um passeio. Ao falar de um jardim, independente do tamanho, falamos de pessoas, experiências e sensações. Não precisa de muito esforço para humanizar um contexto com estes elementos.

Conte a sua história

A história focada na marca, seja ela uma empresa ou pessoa, responde perguntas aparentemente simples: quem é você e como você pode ajudar as pessoas. Seria uma forma de compartilhar “o porquê você se importa”. Uma oportunidade de criar conexão de valores.

A história dos seus projetos

Todo projeto é uma história por si só, que apresenta em seu enredo desafios, desejos e como estes foram solucionados e atendidos. Quando olhamos por essa perspectiva percebemos que a resposta para a pergunta “porque você escolheu aquelas espécies?” pode ir além dos conceitos técnicos, como plantas de sol ou meia-sombra, e render uma boa narrativa.

Por trás da história do jardim

A planta, o gato, o vaso que era da avó, a muda que foi um presente, os momentos que já foram vivenciados e os que ainda estão por vir. Grande parte do trabalho como contadores de histórias vem do saber ouvir com atenção. A reunião de briefing pode te render mais do que anotações no caderno.

Vou te contar uma história!

E para deixar este artigo bem real, te convido para conhecer a minha história. Em cada texto que escrevo para o Papo de Paisagista compartilho um pouco de quem eu sou e da minha forma de enxergar o paisagismo como uma profissão linda e muito importante. Mas desta vez senti que poderia ir um pouco além, me abrir um pouco mais.

Por isso gravei um vídeo contando um pouco da minha história. Falo sobre a minha relação com o paisagismo, como tudo começou e para onde estamos indo. Veja no IGTV do @jardimavista

Como eu acredito que a comunicação é um caminho de mão dupla, caso seja inspirado por esse artigo a contar novas histórias, peço que compartilhe a experiência comigo, me marcando ou enviando por mensagem. Vamos fazer uma rede de histórias de jardins.

Árvores em Espaldeira…no jardim? por Dorothi Bouwman

Um tipo de condução de árvores muito antiga, presente nos jardins formais nos castelos europeus assim como nas propriedades rurais. Nos jardins dos castelos as árvores obedeciam ao desenho retilíneo e eram podadas na altura e largura desejada. Muito comum a beira de caminhos nos arredores do castelo. Além disto no pomar estavam as frutas conduzidas em espaldeira como na “Potager du Roi” (A horta do Rei) do Palácio de Versalhes.

Já nas propriedades rurais o funcional é o que manda, nestes locais não se pensava muito na beleza ou se era chique ter uma espaldeira no jardim. A função principal é de sombreamento plantada na face sul das residências ou para refrescar ambientes onde era fabricado o queijo e a manteiga.

A árvore mais antiga e mais conhecida na Europa para este tipo de condução é a Tilia sp (várias espécies dela são boas para ser conduzidas em espaldeira) da família das Malvaceas.

 Esta arvore tem história e significado, para se ter uma ideia na Holanda uma tília foi plantada quando a princesa real Amália nasceu em 2003. Na Idade Média reuniões e julgamentos eram feitas sob a sombra dela (“judicium sub tília”), daí vem a palavra latina subtilis e no português sutil. Ela também é indicadora de solo fértil, por isso era preservada e valorizada nas áreas rurais e consequentemente utilizada para estas reuniões. Sob uma tília era proibido mentir, por isso ela também foi plantada nas praças para as reuniões e julgamentos. Que tal plantar uma espécie nativa brasileira nas praças com esta mesma função….?

A imagem antiga mostra uma tília na praça da cidade de Eindhoven na Holanda que era usada justamente para este fim.

Voltando às espaldeiras, me empolguei com a história da tilia…

E hoje? Qual a utilidade e a aceitação deste tipo de condução?

Na Europa é muito fácil encontrar a espaldeira nos jardins das cidades e na área rural. As árvores mais utilizadas são as Tilias, alguns tipos de Acer, Platanos, Photinea, Liquidambar, Oliveiras , Carvalhos, árvores do gênero Fagus, Carpinus  além das frutas da família Rosaceae como a Macieira e a Pereira.

E aqui no Brasil nós utilizamos a espaldeira também! Na viticultura a espaldeira é muito comum porque é uma opção mais barata que a condução em latada e a incidência de luz e os tratos culturais são favoráveis neste sistema.

Nos jardins é pouco utilizada por aqui, não temos esta cultura de conduzir arvores desta forma. As nossas árvores são plantadas e crescem livremente sem, ou quase sem, interferência humana. Mesmo assim entendo que as espaldeiras são elementos interessantes dependendo do estilo de jardim, do espaço disponível, da espécie que um cliente quer neste espaço, da função que ela pode exercer. Já tive a oportunidade de fazer um jardim em frente a um parque com arquitetura holandesa, nesta espaldeira utilizei a Photinea x fraseri . As fotos não estão muito boas, mas dá pra ter uma ideia da arquitetura e da condução.

Em países onde ela é muito utilizada elas são vendidas já tutoradas e podadas. A muda já vem pronta, é só continuar a condução ao longo do crescimento.

A espaldeira é funcional e decorativa , veja o que podemos fazer com elas.

PRIVACIDADE E SOMBREAMENTO

FRUTÍFERAS QUE CABEM NO SEU JARDIM

DECORAR UM MURO

MAIS INSPIRAÇÕES

Caso tenha interesse em aprender mais entre com a palavra “Leibomen”( holandês ) ou “Espalier” (inglês ) no Pinterest, tem até dicas de poda e como conduzir.

O que achou? Ultrapassado? Brega? Só para jardim europeu? Artificial?  Prático? Muita manutenção? Lindo? kkk 

Independente da nossa avaliação brasileira, a espaldeira (até rimou) pode ser uma opção e ah….resolver aquele dilema de quando o cliente quer porque quer um plátano em um jardim pequeno!!

Um abraço a todos!!

Bibliografia:

https://www.zeeuwseankers.nl/verhaal/leilindes

http://boerderijtuinen.blogspot.com/2015/12/betekenis-van-de-lindeboom-op-het.html

De démodé a “queridinhas da vez” – por Vitoria Davies

Tenho visto muitos stories e postagens no Instagram sobre a jibóia.  Assim como a samambaia, as duas são plantas que há algumas décadas se tornaram démodé, antiquadas, para ressurgirem como as plantas da vez. Primeiro foi a samambaia, planta exuberantemente cheia e pendente, perfeita para os jardins verticais – e foram eles que a resgataram do esquecimento quando viraram moda. Hoje são estrelas não só em jardins verticais, mas também pendendo do teto de salas, brotando de gavetas de cômodas, preenchendo vãos embaixo de aparadores, enfeitando estantes. A recente moda do urban jungle reforçou sua popularidade.

Existem cerca de 12 mil espécies de samambaias no mundo, sem esquecer da avenca, do asplênio e do chifre-de-veado, também samambaias. É uma das plantas mais antigas do planeta.

Via Google
Fonte: The Guardian

A jibóia, por suas folhas em forma de coração quando a planta é jovem e seu caimento gracioso, parece que também veio para ficar – figura em jardins verticais, adorna estantes em interiores, além de usada, em jardins, como trepadeira apoiada em suportes ou como cobertura de solo em locais mais sombreados.

Originária das Ilhas Salomão, a jibóia que vemos mais comumente em áreas externas e em interiores é uma das oito espécies do gênero Epipremnum. Trata-se da Epipremnum pinnatum.

Epipremnum pinnatum – Fonte: Pinterest

Outra espécie muito atraente desse gênero, que ilumina qualquer composição, é a Epipremnum aureum, com folhas amarelo-limão.

Epipremnum aureum – Fonte: Google

Mas o que proponho é que nós, paisagistas, contribuamos para tornar outras plantas também “queridinhas da vez”, solicitando-as a produtores para uso em nossos projetos. Se começarem a ser muito procuradas pelos profissionais da área, os produtores serão incentivados a produzirem-nas. Há no mercado alguns produtores apresentando novidades para diversificar a flora de nossos jardins e interiores, entre eles, @plantacaolocal.guaratiba (RJ) e @j.pompeo (SP); a maioria, porém, tende a produzir o que é mais conhecido e mais garantido de ser vendido. Algumas não são exatamente novidades, mas às vezes são desprezadas por serem consideradas “mato”, como a linda nativa flor-de-guarujá (Turnera ulmifolia), que, além de tudo, é uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) – suas flores tornam saladas e saladas de frutas mais saborosas, e com as folhas, secas e trituradas, pode-se fazer chás ou condimentar comidas.

Flor-de-guarujá (Turnera subulata). Fonte: Google

Não é o caso da minipitanga (Eugenia mattosi), mas que também poderia entrar na categoria “queridinha da vez”, substituindo a já batida ixora, e estar mais presente no paisagismo, até mesmo em jardins verticais, como apontou a professora e paisagista Flávia Nunes em palestra recente sobre plantas nativas.

Termino com uma planta espetacular, tão nova no mercado, que ainda não tem nome popular. Produzida por produtor do grupo Plantação Local, foi estreada na Casa Cor Rio 2019 no jardim do paisagista Sandro Ward e já começa a aparecer em outros jardins, e até em paredes verdes: o Philodendron subhastatum. O paisagista carioca Rafael Carvalho, sócio da Vertic Jungle (@vertic_jungle), acaba de implantar em área externa uma belíssima parede verde que projetou, na qual utilizou esse filodendro. Versátil, o P. subhastatum ficará também magnífico em maciços e interiores.

Philodendron subhastatum. Foto de Claudia Leandro da Silva, idealizadora e representante comercial do grupo Plantação Local
Jardim vertical projetado e implantado pelo paisagista Rafael Carvalho. Foto de Rafael Carvalho

Difícil imaginar que essa maravilha de planta possa um dia se tornar démodé. Certamente virá a compor o grupo das “queridinhas da vez”, ou “queridinhas para sempre”… Estimulemos o mercado a vender essa e tantas outras que, apesar de merecerem destaque, são deixadas de lado em prol, em geral, das que o consumidor já conhece mais e garantem vendas. O paisagismo atual precisa de maior diversificação, e estamos no país certo para isso…

Plantas em tempo de reclusão – por Lilian Casagrande

E, de repente, todos nós tivemos que ficar em casa. Modificar nossas vidas, evitar sair, evitar encontrar e, principalmente, tocar nas pessoas que gostamos e conviviam conosco.

Fomos obrigados a reparar mais em nós. Em nossos movimentos, nossos corpos, saúde, atitudes, nossas relações com as pessoas e com as coisas materiais – na nossa interação social e na nossa relação com o espaço físico.

E tudo aquilo a que tínhamos acesso fácil, agora já não temos tanto. E assim, aprendemos a valorizar. Valorizar a alegria da convivência, a alegria da observação, a alegria do contato com aquilo tudo que nos fazia tão bem… E, no meio disso tudo, a natureza que nos cercava!

Nunca foi tão importante aprendermos a cuidar do espaço que deveria sempre ser o nosso refúgio, o nosso lugar de escape, de reequilíbrio no final e no começo do dia. O lugar que verdadeiramente nos abriga e nos acolhe – o nosso lar. E como falar em equilíbrio sem a presença de vida, de natureza, daquela energia pura e sutil que é inerente às plantas?

Eu acredito que agora, mais do que nunca, é o momento de valorizarmos e cuidarmos do nosso interior e desse espaço único chamado casa. Porque a nossa casa é a extensão do nosso corpo. Ela acaba por nos refletir. E, num ciclo sem fim, nós a influenciamos e ela nos influencia de volta.

Se você ainda não se conscientizou disso, vou propor um exercício: todos os dias pare por alguns minutos e observe cada cômodo da sua casa. O que você mais valoriza? Do que sente falta? O que você pode modificar para tornar o espaço mais aconchegante e equilibrado? Como está a sua relação com a sua natureza interna e com a natureza da sua casa?

Nós sabemos que as plantas nos trazem inúmeros benefícios, como limpeza de poluentes e umidificação do ar. Mas hoje, diante do cenário que vivemos, eu quero focar naqueles aspectos mais intangíveis relacionados ao bem-estar. A calma, a harmonia, o equilíbrio, a tranquilidade e a alegria. Embora as urban jungles estejam super em alta por intensificarem todos esses efeitos, saiba que não é preciso muito para mudar o astral da sua casa – e o seu também.

Projeto de paisagismo por Catê Poli
Projeto de paisagismo por Anni Verdi

Se você é daquelas pessoas que acham que não tem o dedo verde, vou compartilhar aqui um segredo: tudo na vida é aprendizado, observação e treino! Tudo mesmo, simples assim (até nossos sentimentos e reações diante das situações, viu? Mas esse é assunto para um outro papo, com outros especialistas). E, para qualquer aprendizado, a dica é sempre a mesma: comece com pouco, treine e, quando estiver dominando o assunto ou a habilidade, dê o próximo passo.

Por isso, não importa quanto tempo vai levar, mas tenha as suas plantas, mesmo que sejam poucas! Quanto maior a diversidade, melhor. Isso porque não é só a energia das plantas que nos beneficia, mas percorrer calmamente o olhar por todas elas também nos faz desconectar de tudo e, assim, relaxar, melhorando nossa respiração, nossa concentração, o fluxo de pensamentos, equilibrando a liberação de hormônios de prazer e trazendo diversos benefícios para a nossa saúde.

Não se esqueça de escolher as espécies de acordo com as condições do espaço onde elas vão ficar, mas a composição harmônica entre espécies, cores e materiais dos vasos, cachepôs e restante da decoração é muito importante para estimular nossa visão e, ao mesmo tempo, criar a sensação de aconchego (é preciso tomar cuidado para não gerar excesso de informação e, com isso, provocar um efeito estressante). Buscar uma pequena cartela de cores para os vasos e decoração, ou mesmo apostar em um tema monocromático e optar por variar mais no efeito visual da vegetação costuma ser uma boa estratégia para evitar erros. O contrário também pode ser válido: buscar vegetações com texturas e tons próximos e variar mais nos vasos.

Paisagismo para apartamento alugado, com poucas plantas para facilitar a mudança. Autoria: Lilian Casagrande

Sempre que puder, teste as composições antes de levar para casa. Contar com ajuda profissional é sempre válido, já que nós paisagistas estudamos diariamente para fazer o nosso trabalho atingir o potencial máximo do espaço de acordo com o gosto individual de cada cliente (ou família), adequando o projeto à identidade visual desejada, à facilidade de manutenção de acordo com a rotina de cada um e ensinando os cuidados básicos para você conseguir manter as suas plantas sempre lindas e saudáveis sem dificuldade!

Sempre digo que o trabalho do paisagista vai muito além de colocar vasos e plantas no espaço. Nós criamos áreas de lazer, áreas que proporcionam momentos de relaxamento, de conexão e de união entre pessoas, e também entre pessoas e natureza.

Projeto de paisagismo por Claudia Diamant

Nesse momento de isolamento social, nós continuamos aqui, de coração e braços virtualmente abertos, trabalhando para trazer alívio e conforto para quem precisar. Conseguimos facilmente fazer o nosso trabalho de forma 100% online e existem alguns gardens que estão trabalhando com delivery. Conte conosco e transforme seu lar – e agora, possivelmente, seu espaço de trabalho – em um lugar mais leve e feliz!

O excesso e a falta do mundo digital – por Chris Lara

Mais do que nunca, nesses tempos de quarentena, estamos sendo desafiados a usar a nossa consciência para viver o equilíbrio em todos os aspectos da nossa vida. O digital se mostrou um grande aliado dos negócios e dos empreendedores, que ganharam autonomia para comunicar o seu produto ou serviço. Mas, para quem está do outro lado da tela do celular, o barulho ficou alto demais. Muita gente, querendo falar com muita gente ao mesmo tempo.

Junto com o excesso de informação que nos distrai, consome nosso tempo, ou ainda pior, nos estressa, vem a falta da autenticidade. Na busca frenética para chamar atenção, muitas pessoas acabam gerando cópias ou conteúdos vazios.

Podemos atribuir esta sensação de que o meio digital está saturado à falta de conexão com as mensagens que recebemos. E quando você – na posição de ouvinte – percebe isso, qual seria a sua reação? Cortar essas conexões. Simples assim. E o outro lado, que está mandando a mensagem, precisa saber interpretar esse sinal e se preparar melhor para conquistar o direito de ser ouvido.

Seletividade natural

O futuro é privado. Ele é mais próximo, mais íntimo. O dialogo real, entre consumidores e empresas, será uma escolha da primeira parte. Isso significa que as pessoas escolhem de quem elas querem receber informações e como elas querem que isso aconteça.

Isso muda a lógica de relacionamento e construção de valor na internet. Na prática, significa que apesar de ainda ser coletiva (de 1 para N), ela acontece com apelo individual. Você deve usar os seus canais de comunicação como se estivesse conversando com uma pessoa na sala de estar da casa dela, ou melhor, no jardim.

Então, se você vai aproveitar esse período de isolamento social no mundo físico para explorar um pouco mais o universo digital, vá fundo. Mas vá mais fundo ainda na dose de personalidade que vai usar nessa comunicação. Se pergunte, por exemplo: O que as pessoas com as quais quero me conectar para apresentar o meu trabalho gostariam de ouvir de mim neste momento? Não pense só em atributos do seu portfólio e serviço, mas também em características pessoais suas que podem fazer com que o cliente te escolha. A escolha de um paisagista tem a ver com atributos como segurança, credibilidade, experiência, mas também com afinidade.

Aproveite essa jornada do isolamento para se conectar com sua essência e com o que te trouxe até aqui. A resposta para o seu posicionamento de marca está dentro de você, e não em uma fórmula mágica de lançamento de produto.

Apesar da recessão econômica, os valores irão mudar. A necessidade de contato com a natureza, que já vinha aflorando à medida que o ser humano despertava para uma vida mais verdadeira, vai falar ainda mais alto após confinamento. Mostre que está preparado para fazer esta ponte.