Plantas de plástico e plantas permanentes são realmente plantas? por Rachel Castanheira

Vive-se num momento de grandes transformações globais, na nossa área profissional, o paisagismo, não poderia ser diferente. O advento da revolução tecnológica tem trazido acesso à informação e ao desenvolvimento de plantios de diversas espécies, que antes eram limitados
a poucas pessoas no mundo. E isso é muito bom. O compartilhamento de informações e o acesso às espécies, que antes não eram cultivadas em maior escala, têm trazido uma amplitude de possibilidades para os apreciadores e profissionais da área. O potencial de cada projeto é único (podemos levar a diversidade e complexidade presente na natureza para
dentro das residências). No entanto, existe um fenômeno recente e que tem crescido de forma surpreendente, que é a substituição da utilização de plantas vivas nos projetos paisagísticos por plantas de plástico ou plantas permanentes – plantas vivas que são mortas e tratadas, de forma a manter a sua forma original. Os argumentos utilizados, geralmente, em prol da colocação dessas plantas mortas levam a crer que a natureza está sendo levada para dentro de casa. Será? Plantas de plástico e plantas permanentes, realmente levam vida para dentro de casa? Trazem realmente os benefícios que as plantas vivas proporcionam aos ambientes? É o que pretendemos explorar neste texto.

Num momento em que as questões ambientais e climáticas estão tão em voga, surge um fenômeno “novo” e contraditório na nossa área, que é a introdução de plantas de plástico e plantas permanentes nos projetos de paisagismo. A despeito da grande diversidade oferecida pela natureza e ao grande acesso existente atualmente, às mais diversas espécies encontradas
nos quatros cantos do planeta, estamos vivenciando esse fenômeno da substituição das plantas vivas por plantas mortas e artificiais.

Painel vertical com plantas de plástico (fonte: arquivo pessoal)

Conversando com os profissionais que estão adotando essas plantas nos projetos e com os clientes que estão acatando essa recomendação, a justificativa para essa prática quase sempre permeia o fato dessas plantas trazerem a natureza e sua beleza para os ambientes, bem como os moradores das residências não terem trabalho para cuidar nem custo para substituir possíveis plantas que possam morrer (por motivo de doença ou falta de cuidados apropriados).

Vaso Planta de Plástico (fonte: Pinterest)

Ou seja, elas são muito mais práticas, econômicas (no longo prazo), pois não requerem rega, podem ser utilizadas em locais que supostamente não comportariam uma planta natural e acabam levando da mesma maneira a “natureza” para dentro das residências.

Apesar de alguns desses argumentos serem coerentes, será que essas plantas mortas trazem de fato a natureza para as nossas residências?

Já adiantamos que o intuito deste texto não é dividir ou gerar uma separação entre os adeptos e não adeptos de plantas de plástico e plantas permanentes. O nosso mundo já está repleto de divisões e, de forma alguma, este texto pretende contribuir ainda mais com essa separação. A natureza, inclusive, espelha todos os dias para nós a importância da integração e da cooperação.

Porém, é importante refletirmos se ao colocarmos plantas mortas nas residências, teremos de fato a natureza presente em nossas casas.

Para adentrarmos nessa questão, vamos falar um pouco da natureza, no caso, das plantas vivas. Uma planta viva é literalmente um ser vivo que respira, se alimenta, cresce, se desenvolve, floresce (em muitas das vezes), se multiplica e que também adoece e morre. É um ser vivo em constante modificação de si. Não se trata de um ser estático, morto, previsível. Tem sua própria dinâmica de desenvolvimento e, de fato, está sujeito a mudanças, sem aviso prévio.

Um ambiente que contém plantas vivas é (redundantemente) mais vivo, dinâmico, aconchegante, refrescante, suave. Muitas espécies de plantas auxiliam inclusive na purificação do ar, auxiliando no tratamento de doenças respiratórias. Para não falar nos benefícios já comprovados no auxílio do tratamento das chamadas doenças da alma (depressão, ansiedade e afins).

Painel Vertical com plantas vivas. Projeto: Rachel Castanheira Paisagismo

Além disso, a colocação de plantas vivas em nossos ambientes traz a possibilidade também de contemplarmos a natureza durante o nosso cotidiano, no dia a dia. Basta uma simples pausa para nos reconectarmos com nós mesmos, através da contemplação dessas belezas que a natureza nos oferece.

Um toque numa folha, o respirar do aroma de um jasmim, o furo proveniente de um espinho que não tomamos cuidado. A natureza é simplesmente inspiradora. Um presente para podermos relembrar da nossa essência, do natural que há em cada um de nós.

Agora, retomando a questão central do texto, será que ao trazermos plantas mortas ou artificiais para dentro de casa, estamos de fato trazendo a natureza para os nossos ambientes?

Diria que não. De fato, não. Podemos até nos referir a uma possível lembrança da natureza ao vermos essas plantas, mas são simplesmente lembranças mortas, decorativas, artificiais. Não têm vida. Não trazem vida. Não interagem. Não contribuem para essa reconexão com a nossa essência. Não encantam e nem perfumam o nosso dia a dia. Não nos fazem perceber a beleza que é podermos morar num lugar lindo como o nosso planeta. Um local com diversidade, pluralidade de belezas naturais.

Celebremos a natureza! Ela é uma grande professora para todos nós.

Num momento planetário de tantas transformações, inclusive climáticas e do meio ambiente, trazer a natureza (viva) para dentro de casa parece ter muita relevância (talvez, sempre tenha tido, porém, neste momento, tem tido um importante papel de recordação da relevância de nos reconectarmos conosco e com o meio ambiente). Estamos integrados e a noção de separação entre nós e a natureza parece ser somente uma percepção distorcida da realidade. Fazemos parte de um sistema vivo planetário, cósmico. E a natureza talvez seja a grande professora, esquecida ao longo desses milênios. Sempre disponível e aberta para nos ensinar. Sem nada nos exigir. Sentido de cooperação inerente a sua própria existência.

Fonte: arquivo pessoal

Plantas de plástico, permanentes ou plantas vivas?

Talvez a reflexão mais importante que podemos fazer é que uma não é substituta da outra. São coisas completamente diferentes. Se pensarmos nas plantas de plástico ou plantas permanentes como adornos, enfeites sem vida, creio que estaríamos colocando-as no seu devido lugar. Agora, se estamos falando em trazer a natureza para o nosso habitat, em trazer a beleza, a suavidade e todos os benefícios que esses lindos seres vivos proporcionam aos ambientes que habitam, sem sombra de dúvidas, estamos falando das plantas vivas.

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