Bromélias e mosquitos da dengue – por Gabriel Kehdi

Afinal, bromélias são ou não criadouro do mosquito da dengue? Para trazer luz sobre essa questão, vamos para dentro das pesquisas científicas.

(imagem: Ric Reed/ pixabay)image.gif

Primeiro, vamos entender um pouco mais sobre as bromélias. As bromélias ocorrem quase exclusivamente nas Américas, havendo apenas um grupo de ocorrência no continente africano. De todas as espécies de bromélias, cerca de 36% fazem parte da flora brasileira, sendo um grupo de plantas com bastante representatividade para o país.

(imagem: Falco/ pixabay)

Há uma grande diversificação de formas nas bromélias. Elas podem ser terrícolas (ou seja, crescem na terra), podem ser rupícolas (crescem nos trincos de rochas), ou podem ser epífitas (crescem apoiadas em árvores – não são parasitas, somente se apoiam nos troncos). Há desde espécies com folhas rígidas, típicas de ambientes secos, até plantas de folhas delicadas, em forma de cuias, com capacidade de armazenar água da chuva. E essas bromélias capazes de armazenar água são o foco do nosso artigo.
O conjunto dessas “cuias” formadas pelas folhas recebe o nome de tanque. Esse tanque é responsável por manter a bromélia nutrida e hidratada e é um micro ecossistema complexo que abriga uma gama de seres vivos, como rãs e pererecas, plantas carnívoras, algas, aranhas, insetos, entre outros. Vale destacar que nem todas as bromélias possuem tanque.

(imagem: tangmo_ok/ pixabay)

Entre os muitos seres vivos que compartilham o tanque das bromélias estão os mosquitos. Muitas espécies de mosquitos que vivem nesse ambiente são nativas e não representam perigo para a população. Outras, como o mosquito da dengue, levantam preocupação sobre o costume dessas bromélias em acumular água. E adiantando a informação, mosquitos da dengue podem de fato se reproduzir em tanques de bromélias. Mas calma, há uma boa notícia.

Sabemos que o mosquito da dengue gosta de se reproduzir em água limpa e parada. Os surtos de mosquito da dengue em várias cidades brasileiras estão diretamente relacionados com o lixo, com a ausência de limpeza urbana, e com o esforço incipiente da população e das gestões públicas. O mosquito da dengue se reproduz em água parada de pneus, caixas-d’água, calhas, tambores, entre outros materiais capazes de acumular água da chuva, o que infelizmente inclui nossas amadas bromélias (cultivadas e espontâneas).

Mas a boa notícia vem agora: em diversas pesquisas realizadas sobre a ocorrência de mosquitos da dengue em bromélias, foi verificado que apenas uma porcentagem muito pequena de larvas do mosquito da dengue se encontrava em bromélias. De maneira geral, as pesquisas apontam que as bromélias não são um criadouro preferencial do mosquito da dengue. Por mais que as larvas possam se desenvolver em uma bromélia, a grande preocupação das ações de controle deve estar voltada para a limpeza urbana e fiscalização de residências.

Em uma notícia publicada na página do UOL Notícias, destaca-se: “A incidência do mosquito nas plantas que acumulam água foi estudada em 2007 pelo Instituto Oswaldo Cruz. No período de um ano, foram encontradas 2.816 formas imaturas de mosquitos [de diversas espécies] nas 156 plantas de dez espécies do bromeliário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Dessas, só 0,07% correspondiam ao Aedes aegypti e 0,18% ao aedes albopictus” (espécies transmissoras da dengue).

Com esse estudo do Instituto Oswaldo Cruz fica claro que o mosquito da dengue não tem preferência na busca de bromélias para colocar seus ovos. 

Claro que o combate à dengue deve ser feito em todas as frentes, afinal, é da nossa saúde que estamos falando. Por isso precisamos manter nossas bromélias sob vigilância (e não ataque). Vamos às soluções para o cultivo de bromélias para também protegê-las contra o mosquito da dengue.

Há algumas tentativas aflitas de manter o mosquito longe das bromélias, como o uso de água sanitária, areia, ou furar as folhas. Todas essas alternativas podem prejudicar muito a planta, podendo matá-la.

Uma pesquisa feita em conjunto pela USP e Secretaria do Estado da Saúde do Paraná mostrou que adicionar palha de madeira no tanque das bromélias cria um impedimento mecânico contra o mosquito da dengue. A pesquisa mostrou que esse método de controle é promissor, já que nenhuma das bromélias tratadas dessa forma foi alvo do mosquito da dengue, mesmo numa região com índice crescente do mosquito. A palha de madeira é um material facilmente encontrado como resíduo de marcenaria, atuando como uma ótima proteção para a planta.

(Imagem: Nancy McNamara/ pixabay)

Como uma alternativa à palha de madeira, é possível adicionar fibra de coco fina nos tanques das bromélias para evitar a aproximação do mosquito. A fibra de coco pode ser facilmente encontrada em lojas de jardinagem. Triturado de restos de poda também pode ser utilizado, desde que as partículas não sejam muito finas (o pó de madeira pode se decompor com rapidez, causando podridão na planta e sendo ineficaz contra o mosquito).

(Imagem: Gabriel Kehdi)

É muito importante manter as bromélias sob atenção constante. Se utilizarem palha de madeira, fibra de coco ou triturado de poda entre as folhas das bromélias como alternativa de impedimento do mosquito, verifiquem sempre se é necessário reforçar a aplicação. É PRECISO FAZER MANUTENÇÃO DA PALHA SEMPRE.

As bromélias são nossas amigas, e por isso também precisamos ajudá-las contra o mosquito da dengue.

Depois de ler esse artigo, não esqueça de dar atenção redobrada para as bromélias: para apreciá-las e verificar se está tudo sob controle.

Bom plantio!

Referências:
http://www.biodiversidade.pgibt.ibot.sp.gov.br/Web/pdf/Bromelias_Bianca_Moreira.pdfhttps://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/03/03/na-briga-contra-o-aedes-botanicos-alertam-deixem-as-bromelias-em-paz.htm?cmpid=copiaecolahttps://pdfs.semanticscholar.org/e0a6/cc22d770c0390d98702c85339b4a70aaf007.pdfhttp://www.producao.usp.br/bitstream/handle/BDPI/13429/art_SILVA_Protecao%20de%20Bromeliaceae%20para%20evitar%20a%20formacao%20de%20criadouros_2008.pdf?sequence=1http://abes-dn.org.br/publicacoes/rbciamb/PDFs/19-07_Materia_5_geral_artigos271.pdfhttps://www2.ib.unicamp.br/profs/eco_aplicada/revistas/be300_vol2_4.pdfhttp://www.scielo.br/pdf/csp/v33n1/1678-4464-csp-33-01-e00071016.pdfhttp://www.scielo.br/pdf/rsbmt/v38n3/24001.pdf

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