110 anos de Roberto Burle Marx – por Flávia Nunes

Ser convidada para integrar o grupo de colaboradores do Papo de Paisagista é uma honra pra mim e iniciar esta participação falando de alguém que mudou minha vida é um presente. Meu domingo, 4 de agosto de 2019 foi um dia prazeroso em meio aos livros, revistas, vídeos, afim de trazer pra vocês um texto com o conteúdo além do que tenho gravado em minha mente devido já ter montado tantas aulas sobre o assunto. Confesso que cada vez que paro pra estudar eu me encanto, são detalhes que surgem e aprendo mais e o admiro mais.

Há 110 anos nascia o menino que veio mudar a história do Paisagismo brasileiro, dia 4 de agosto de 1909 em São Paulo, Roberto o 4° filho de Wilhelm Marx e Cecilia Burle. Não se trata da história de superação de uma criança pobre, e sim de um menino que aproveitou as oportunidades que teve desde a infância incentivado pelos seus pais que investiram em educação e cultura, ele cresceu cercado pela arte, sua mãe pernambucana de origem francesa era pianista e gostava de jardim, seu irmão também era musicista amigo de Vila Lobos, Roberto adorava cantar se tornando um excelente barítono. O pai alemão dono de um curtume, após uma crise financeira levou a família pra morar no Rio de Janeiro em 1913. Burle Marx teve um problema de visão e foram pra Europa em busca de tratamento, na Alemanha estudou pintura de 1928 a 1939 e foi no Jardim Botânico de Dahlen, em Berlim, que descobre as estufas e fica impressionado com a beleza das plantas brasileiras. “Eu descobri o Brasil em Berlim”, disse Burle Marx. 

Ao retornar para o Brasil, ingressou no curso de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1930. Após 2 anos faz seu primeiro projeto de jardim para a residência da família Schwartz, arquitetura de Lúcio Costa e Gregory Warchavchick. Com a introdução de plantas nativas no jardim, que foi um de seus diferenciais, tornou-se um marco na criação do Paisagismo brasileiro, antes dele os projetos paisagísticos eram “importados” seguindo estilos europeus, ele também utilizou plantas exóticas que se adaptavam ao nosso clima. Lúcio Costa o convidou pra começar a fazer jardins dos seus projetos de arquitetura e também foi colaborador do arquiteto Oscar Niemeyer.

Em 1934 tornou-se Diretor de Parques e Jardins em Recife, cargo que ocupou até 1937. Como eu sou uma admiradora de Burle Marx quis ir pessoalmente conhecer os trabalhos realizados por ele, e em outubro de 2018 tive a honra de ser guiada por Zenaide Nunes, gerente do Jardim botânico de Recife, vice-presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos que atua como Paisagista em Recife e está recriando o Jardim Botânico do Parque Estadual de Dois Irmãos PEDI, gerente de planejamento e projeto da secretaria de meio ambiente e sustentabilidade do Estado de Pernambuco. Visitei a Praça Euclides da Cunha em homenagem a obra ” Os sertões” e a Praça de Casa Forte.  Em Recife já estão na 11ª edição da Semana Burle Marx com programação de 4 a 28 de agosto 2019.

Praça Euclides da Cunha – Recife. Foto: Marcia Chimenes do Comitê Burle Marx
Praça de Casa Forte Recife Foto: Flávia Nunes

Assistente de Alberto da Veiga Guignard e de Candido Portinari, teve várias fases na pintura e foi um magnífico pintor retratista acadêmico convencional. Em guache sua primeira obra com abstração foi o projeto do Palácio Capanema 1938. No Projeto da residência Odete Monteiro (Fazenda Marambaia) teve total autonomia pra fazer o jardim e foi premiado na Bienal de SP totalizando 18 prêmios somente neste projeto.

Pintura a Guache Projeto Odete Monteiro Foto: Flávia Nunes exposição Pinacoteca SP 2015
Pinturas Burle Marx  no SRBM Foto: Flávia Nunes

Dentre muitos projetos Burle Marx se orgulhava muito do MAM, Largo da Carioca, Petrobrás, Convento de Santo Antônio e Copacabana (Rio de Janeiro).

Aterro do Flamengo Foto: Marina Ribeiro

Em 1949 adquiriu um sítio que atualmente é o Sítio Roberto Burle Marx, um paraíso particular de Burle Marx, onde também estão suas coleções. Fazia almoços, recebia amigos, era exigente na culinária e usava cores na comida. Durante estes eventos ele costumava cantar e gostava de músicas populares e óperas. Sugestão de leitura Livro: “À mesa com Burle Marx” (Pinheiro, Claudia; Dois /um Produções; Modesto, Cecília), que contém receitas que eram servidas aos amigos no sítio com fotografia dos pratos, depoimentos, ilustrações, desenhos, pinturas e anotações de Burle Marx.

Em 1985 doou o sítio pro atual IPHAN, que ao longo destes anos tem mantido com empenho o acervo e organizado eventos voltados pra arte e paisagismo, sendo candidato atualmente a Patrimônio Mundial da Unesco. Agendem uma visita pelo telefone (21) 2410-1412, o sítio Burle Marx fica na Estrada Roberto Burle Marx 2019 Barra de Guaratiba – Rio de Janeiro. Nos arredores  fica localizado o Polo de Gastronomia e Polo de plantas ornamentais, pra mim um legado de Burle Marx pra essa região que antes de sua chegada era produção agrícola. Indicação de leitura “O velho oeste Carioca” (Mansur, André Luis). 

SRBM. Foto: Flávia Nunes
SRBM. Foto: Flávia Nunes

Em 1955 fundou seu escritório de Paisagismo, Burle Marx & Cia Ltda, onde os arquitetos José Tabacow e Haruyoshi Ono colaboraram por anos. O escritório continua funcionando em Laranjeiras desenvolvendo projetos nacionais e internacionais coordenado por Isabela Ono, Julio Ono e Gustavo Leivas que preservam os conceitos criativos de Haruyoshi e Burle Marx. 

Roberto Burle Marx, o mestre que inspira tantos paisagistas respirava arte, atuava em vários campos artísticos: pintor, ceramista, desenhava para tapeçaria, designer de jóias, cozinhava, falava 7 idiomas, produziu cenário para o Teatro Municipal e jardineiro, posso ter esquecido de mencionar mais algum talento. Não o conheci pessoalmente mas através das histórias que me contaram eu faço ideia de quem é esse homem generoso, talentoso, bem humorado. Não esperem de mim falar de qualquer defeito dele. Eu sou uma admiradora… foi através de sua história que tracei um novo rumo pra minha vida. Me fez despertar o amor que sempre senti pelas plantas mas nunca tinha interpretado isso como uma possível profissão. Ele ter ganho uma planta de presente e não ter dormido de tanta alegria, eu entendo perfeitamente.

Alocasia cuprea. Foto: Flávia Nunes

E pra mim ela é a mais importante porque foi a partir dela que iniciou a sua grande coleção de plantas. Falando em coleção, ele colecionava coleções, são tantas… Pedras, conchas, cristais, cerâmica e em sua casa guardam-se preservados sob cuidados do IPHAN. Em sua coleção de plantas, alocadas em sombrais que “protegem plantas de meia sombra” e no seu grande jardim, podemos ver plantas nativas e exóticas, muitas que trouxe de expedições, algumas podem ser assistidas na série “Expedições Burle Marx”, produção Camisa listrada, direção João Vargas (diretor também do filme “Paisagem: um olhar sobre Roberto Burle Marx”). Nestas viagens realizava coletas por diversas regiões e descobriu varias plantas e algumas levam seu nome, exemplo a Dyckia burle-marxii.

“Não seria possível fazer jardins sem aprender a conviver com as plantas” (Burle Marx). Cultivou varias espécies que não tinha no mercado pra usar nos jardins.   

Concha da coleção Burle Marx. Foto: Flávia Nunes
Coleção Burle Marx exposta no ateliê-casa. Foto: Flávia Nunes

Antes de terminar não posso deixar de mencionar sua babá Ana Piacsek, uma das histórias que mais me encantou, pois foi com ela que aprendeu a preparar canteiros e observar a germinação de sementes. Burle Marx tinha um carinho tão grande por ela que foi enterrado junto a ela num cemitério simples de Ilha de Guaratiba.

Finalizo aqui minha singela homenagem a este mestre do Paisagismo com este resumo simplificado de sua história com informações obtidas através de vídeos de entrevistas e livros e pra quem se interessar conhecer mais sobre Burle Marx deixo uma lista de indicação de livros e filmes. 

Indicação de Filme: “Paisagem: um olhar sobre Roberto Burle Marx”  e “Expedições Burle Marx” ambos de direção do João Vargas.

Obrigada e até a próxima!

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